Boa noite, pessoal!
Mando um link de um documentário produzindo pela BBC , que pode nos ajudar a pensar sobre o racismo.
http://docverdade.blogspot.com.br/2010/11/bbc-racismo-uma-historia-racism-history.html
segunda-feira, 25 de novembro de 2013
sábado, 23 de novembro de 2013
Olá, pessoal! Na próxima segunda- feira ( dia 25) às 13:30h, na sala 5 do ICHS continuaremos o curso de extensão "Outras margens da filosofia". De acordo com a programação debateremos o tema: "Filosofia da Ancestralidade: nas tramas da diferença" com o professor Eduardo David de Oliveira da UFBA. Para auxiliar na discussão sugerimos um texto que está disponível no xerox da Tetê e no blog. Até segunda!
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
Pessoal, aqui vai o link para texto do Maldonado Torres - Topologia do Ser e a Geopolítica do Conhecimento, apresentado pelo professor José Leite no dia 18/11.
www.ces.uc.pt/rccs/includes/download.php?id=981
E este é o link para o livro do Jack Goody, comentado em sua apresentação:
http://pt.scribd.com/doc/159850828/Jack-Goody-O-Roubo-da-Historia
www.ces.uc.pt/rccs/includes/download.php?id=981
E este é o link para o livro do Jack Goody, comentado em sua apresentação:
http://pt.scribd.com/doc/159850828/Jack-Goody-O-Roubo-da-Historia
Colonialidade do poder,
eurocentrismo e América
Latina1
Aníbal Quijano*
A globalização em curso
é, em primeiro lugar, a culminação de um processo que começou com a
constituição da América e do capitalismo colonial/moderno e eurocentrado como
um novo padrão de poder mundial. Um dos eixos fundamentais desse padrão de
poder é a classificação social da população mundial de acordo com a idéia de raça,
uma construção mental que expressa a experiência básica da dominação colonial e
que desde então permeia as dimensões mais importantes do poder mundial,
incluindo sua racionalidade específica, o eurocentrismo. Esse eixo tem,
portanto, origem e caráter colonial, mas provou ser mais duradouro e estável
que o colonialismo em cuja matriz foi estabelecido. Implica, conseqüentemente,
num elemento de colonialidade no padrão de poder hoje hegemônico. No texto
abaixo, o propósito principal é o de colocar algumas das questões teoricamente
necessárias sobre as implicações dessa colonialidade do poder com relação à
história da América Latina2.
I. A América e o novo padrão de poder mundial
A América constitui-se
como o primeiro espaço/tempo de um padrão de poder de vocação mundial e, desse
modo e por isso, como a primeira id-entidade da modernidade. Dois
processos históricos convergiram e se associaram na produção do referido
espaço/tempo e estabeleceram-se como os dois eixos fundamentais do novo padrão
de poder. Por um lado, a codificação das diferenças entre conquistadores e
conquistados na idéia de raça, ou seja, uma supostamente distinta estrutura
biológica que situava a uns em situação natural de inferioridade em relação a
outros. Essa idéia foi assumida pelos conquistadores como o principal elemento
constitutivo, fundacional, das relações de dominação que a conquista exigia.
Nessas bases, conseqüentemente, foi classificada a população da América, e mais
tarde do mundo, nesse novo padrão de poder. Por outro lado, a articulação de
todas as formas históricas de controle do trabalho, de seus recursos e de seus
produtos, em torno do capital e do mercado mundial3.
Raça, uma categoria
mental da modernidade
A idéia de raça, em seu sentido moderno, não
tem história conhecida antes da América4. Talvez se tenha originado
como referência às diferenças fenotípicas entre conquistadores e conquistados,
mas o que importa é que desde muito cedo foi construída como referência a
supostas estruturas biológicas diferenciais entre esses grupos.
A formação de relações
sociais fundadas nessa idéia, produziu na América identidades sociais
historicamente novas: índios, negros e mestiços, e
redefiniu outras. Assim, termos com espanhol e português, e mais
tarde europeu, que até então indicavam apenas procedência geográfica ou
país de origem, desde então adquiriram também, em relação às novas identidades,
uma conotação racial. E na medida em que as relações sociais que se estavam configurando
eram relações de dominação, tais identidades foram associadas às hierarquias,
lugares e papéis sociais correspondentes, com constitutivas delas, e,
conseqüentemente, ao padrão de dominação que se impunha. Em outras palavras,
raça e identidade racial foram estabelecidas como instrumentos de classificação
social básica da população.
Com o tempo, os colonizadores codificaram
como cor os traços fenotípicos dos colonizados e a assumiram como a
característica emblemática da categoria racial. Essa codificação foi
inicialmente estabelecida, provavelmente, na área britânico-americana. Os
negros eram ali não apenas os explorados mais importantes, já que a parte
principal da economia dependia de seu trabalho. Eram, sobretudo, a raça
colonizada mais importante, já que os índios não formavam parte dessa sociedade
colonial. Em conseqüência, os dominantes chamaram a si mesmos de brancos5.
Na América, a idéia de
raça foi uma maneira de outorgar legitimidade às relações de dominação impostas
pela conquista. A posterior constituição da Europa como nova id-entidade depois
da América e a expansão do colonialismo europeu ao resto do mundo conduziram à
elaboração da perspectiva eurocêntrica do conhecimento e com ela à elaboração
teórica da idéia de raça como naturalização dessas relações coloniais de
dominação entre europeus e não-europeus. Historicamente, isso significou uma
nova maneira de legitimar as já antigas idéias e práticas de relações de
superioridade/inferioridade entre dominantes e dominados. Desde então demonstrou
ser o mais eficaz e durável instrumento de dominação social universal, pois
dele passou a depender outro igualmente universal, no entanto mais antigo, o
intersexual ou de gênero: os povos conquistados e dominados foram postos numa
situação natural de inferioridade, e conseqüentemente também seus traços
fenotípicos, bem como suas descobertas mentais e culturais6. Desse
modo, raça converteu-se no primeiro critério fundamental para a distribuição da
população mundial nos níveis, lugares e papéis na estrutura de poder da nova
sociedade. Em outras palavras, no modo básico de classificação social universal
da população mundial.
O Capitalismo: a nova
estrutura de controle do trabalho
Por outro lado, no processo de constituição
histórica da América, todas as formas de controle e de exploração do trabalho e
de controle da produção-apropriação-distribuição de produtos foram articuladas
em torno da relação capital-salário (de agora em diante capital) e do mercado
mundial. Incluíram-se a escravidão, a servidão, a pequena produção mercantil, a
reciprocidade e o salário. Em tal contexto, cada umas dessas formas de controle
do trabalho não era uma mera extensão de seus antecedentes históricos. Todas
eram histórica e sociologicamente novas. Em primeiro lugar, porque foram
deliberadamente estabelecidas e organizadas para produzir mercadorias para o
mercado mundial. Em segundo lugar, porque não existiam apenas de maneira
simultânea no mesmo espaço/tempo, mas todas e cada uma articuladas com o
capital e com seu mercado, e por esse meio entre si. Configuraram assim um novo
padrão global de controle do trabalho, por sua vez um novo elemento fundamental
de um novo padrão de poder, do qual eram conjunta e individualmente dependentes
histórico-estruturalmente. Isto é, não apenas por seu lugar e função como
partes subordinadas de uma totalidade, mas também porque sem perder suas
respectivas características e sem prejuízo das descontinuidades de suas
relações com a ordem conjunta e consigo mesmas, seu movimento histórico dependia
desse momento em diante de seu pertencimento ao padrão global de poder. Em
terceiro lugar, e como conseqüência, para preencher as novas funções cada uma
delas desenvolveu novos traços e novas configurações histórico-estruturais.
Na medida em que aquela estrutura de controle
do trabalho, de recursos e de produtos consistia na articulação conjunta de
todas as respectivas formas historicamente conhecidas, estabelecia-se, pela
primeira vez na história conhecida, um padrão global de controle do trabalho,
de seus recursos e de seus produtos. E enquanto se constituía em torno de e em
função do capital, seu caráter de conjunto também se estabelecia com
característica capitalista. Desse modo, estabelecia-se uma nova, original e
singular estrutura de relações de produção na experiência histórica do mundo: o
capitalismo mundial.
Colonialidade do poder e
capitalismo mundial
As novas identidades históricas produzidas
sobre a idéia de raça foram associadas à natureza dos papéis e lugares na nova
estrutura global de controle do trabalho. Assim, ambos os elementos, raça e
divisão do trabalho, foram estruturalmente associados e reforçando-se
mutuamente, apesar de que nenhum dos dois era necessariamente dependente do
outro para existir ou para transformar-se.
Desse modo, impôs-se uma
sistemática divisão racial do trabalho. Na área hispânica, a Coroa de Castela
logo decidiu pelo fim da escravidão dos índios, para impedir seu total
extermínio. Assim, foram confinados na estrutura da servidão. Aos que viviam em
suas comunidades, foi-lhes permitida a prática de sua antiga reciprocidade
–isto é, o intercâmbio de força de trabalho e de trabalho sem mercado– como uma
forma de reproduzir sua força de trabalho como servos. Em alguns casos, a
nobreza indígena, uma reduzida minoria, foi eximida da servidão e recebeu um
tratamento especial, devido a seus papéis como intermediária com a raça
dominante, e lhe foi também permitido participar de alguns dos ofícios nos
quais eram empregados os espanhóis que não pertenciam à nobreza. Por outro lado,
os negros foram reduzidos à escravidão. Os espanhóis e os portugueses, como
raça dominante, podiam receber salários, ser comerciantes independentes,
artesãos independentes ou agricultores independentes, em suma, produtores
independentes de mercadorias. Não obstante, apenas os nobres podiam ocupar os
médios e altos postos da administração colonial, civil ou militar.
Desde o século XVIII, na América hispânica
muito dos mestiços de espanhóis ou mulheres índias, já um estrato social
extenso e importante na sociedade colonial, começaram a ocupar os mesmos
ofícios e atividades que exerciam os ibéricos que não eram nobres. Em menor
medida ou sobretudo em atividades de serviço ou que requeriam talentos ou
habilidades especiais (música, por exemplo), também os mais “abrancados” entre
os mestiços de mulheres negras e ibéricos (espanhóis ou portugueses), mas
demoraram a ver legitimados seus novos papéis, já que suas mães eram escravas.
A distribuição racista do trabalho no interior do capitalismo colonial/moderno manteve-se
ao longo de todo o período colonial.
No curso da expansão mundial da dominação
colonial por parte da mesma raça dominante –os brancos (ou do século XVIII em
diante, os europeus)– foi imposto o mesmo critério de classificação social a
toda a população mundial em escala global. Conseqüentemente, novas identidades
históricas e sociais foram produzidas: amarelos e azeitonados (ou
oliváceos) somaram-se a brancos, índios, negros e mestiços. Essa distribuição
racista de novas identidades sociais foi combinada, tal como havia sido tão
exitosamente logrado na América, com uma distribuição racista do trabalho e das
formas de exploração do capitalismo colonial. Isso se expressou, sobretudo,
numa quase exclusiva associação da branquitude social com o salário e logicamente
com os postos de mando da administração colonial.
Assim, cada forma de controle do trabalho
esteve articulada com uma raça particular. Conseqüentemente, o controle de uma
forma específica de trabalho podia ser ao mesmo tempo um controle de um grupo
específico de gente dominada. Uma nova tecnologia de dominação/exploração,
neste caso raça/trabalho, articulou-se de maneira que aparecesse como
naturalmente associada, o que, até o momento, tem sido excepcionalmente
bem-sucedido.
Colonialidade e eurocentramento
do capitalismo mundial
A privilegiada posição ganhada com a América
pelo controle do ouro, da prata e de outras mercadorias produzidas por meio do
trabalho gratuito de índios, negros e mestiços, e sua vantajosa localização na
vertente do Atlântico por onde, necessariamente, tinha de ser realizado o
tráfico dessas mercadorias para o mercado mundial, outorgou aos brancos uma
vantagem decisiva para disputar o controle do comércio mundial. A progressiva
monetarização do mercado mundial que os metais preciosos da América estimulavam
e permitiam, bem como o controle de tão abundantes recursos, possibilitou aos
brancos o controle da vasta rede pré-existente de intercâmbio que incluía
sobretudo China, Índia, Ceilão, Egito, Síria, os futuros Orientes Médio e
Extremo. Isso também permitiu-lhes concentrar o controle do capital comercial,
do trabalho e dos recursos de produção no conjunto do mercado mundial. E tudo
isso, foi, posteriormente, reforçado e consolidado através da expansão e da
dominação colonial branca sobre as diversas populações mundiais.
Como se sabe, ou controle do tráfico
comercial mundial pelos grupos dominantes, novos ou não, nas regiões do
Atlântico onde tinham suas sedes, impulsionou um novo processo de urbanização
nesses lugares, a expansão do tráfico comercial entre eles, e desse modo a
formação de um mercado regional crescentemente integrado e monetarizado graças
ao fluxo de metais preciosos procedentes da América. Uma região historicamente
nova constituía-se como uma nova id-entidade geocultural: Europa, mais
especificamente Europa Ocidental7. Essa nova id-entidade geocultural
emergia como a sede central do controle do mercado mundial. No mesmo movimento
histórico produzia-se também o deslocamento de hegemonia da costa do
Mediterrâneo e da costa ibérica para as do Atlântico Norte-ocidental.
Essa condição de sede central do novo mercado
mundial não permite explicar por si mesma, ou por si só, por que a Europa se
transformou também, até o século XIX e virtualmente até a crise mundial ocorrida
em meados de 1870, na sede central do processo de mercantilização da força de
trabalho, ou seja, do desenvolvimento da relação capital-salário como forma
específica de controle do trabalho, de seus recursos e de seus produtos. Em
quanto isso, todas as demais regiões e populações incorporadas ao novo mercado
mundial e colonizadas ou em curso de colonização sob domínio europeu
permaneciam basicamente sob relações não-salariais de trabalho, ainda que desde
cedo esse trabalho, seus recursos e seus produtos se tenham articulado numa
cadeia de transferência de valor e de benefícios cujo controle cabia à Europa
Ocidental. Nas regiões não-européias, o trabalho assalariado concentrava-se
quase exclusivamente entre os brancos.
Não há nada na relação social mesma do
capital, ou nos mecanismos do mercado mundial, em geral no capitalismo, que
implique a necessidade histórica da concentração, não só, mas sobretudo na
Europa, do trabalho assalariado e depois, precisamente sobre essa base, da
concentração da produção industrial capitalista durante mais de dois séculos.
Teria sido perfeitamente factível, como o demonstra o fato de que assim de fato
ocorreu após 1870, o controle europeu-ocidental do trabalho assalariado de
qualquer setor da população mundial. E provavelmente mais benéfico para os
europeus ocidentais. A explicação deve ser, pois, buscada em outra parte da
história. O fato é que já desde o começo da América, os futuros europeus
associaram o trabalho não pago ou não-assalariado com as raças dominadas, porque
eram raças inferiores. O vasto genocídio dos índios nas primeiras décadas da
colonização não foi causado principalmente pela violência da conquista, nem
pelas enfermidades que os conquistadores trouxeram em seu corpo, mas porque
tais índios foram usados como mão de obra descartável, forçados a trabalhar até
morrer. A eliminação dessa prática colonial não termina, de fato, senão com a
derrota dos encomendeiros, em meados do século XVI. A reorganização política do
colonialismo ibérico que se seguiu implicou uma nova política de reorganização
populacional dos índios e de suas relações com os colonizadores. Mas nem por
isso os índios foram daí em diante trabalhadores livres e assalariados. Daí em
diante foram adscritos à servidão não remunerada. A servidão dos índios na
América não pode ser, por outro lado, simplesmente equiparada à servidão no
feudalismo europeu, já que não incluía a suposta proteção de nenhum senhor
feudal, nem sempre, nem necessariamente, a posse de uma porção de terra para
cultivar, no lugar de salário. Sobretudo antes da Independência, a reprodução
da força de trabalho do servo índio se fazia nas comunidades. Mas mesmo mais de
cem anos depois da Independência, uma parte ampla da servidão indígena era
obrigada a reproduzir sua força de trabalho por sua própria conta8.
E a outra forma de trabalho não-assalariado, o não pago simplesmente, o
trabalho escravo, foi restrita, exclusivamente, à população trazida da futura
Africa e chamada de negra.
A classificação racial da população e
a velha associação das novas identidades raciais dos colonizados com as formas
de controle não pago, não assalariado, do trabalho, desenvolveu entre os
europeus ou brancos a específica percepção de que o trabalho pago era
privilégio dos brancos. A inferioridade racial dos colonizados implicava
que não eram dignos do pagamento de salário. Estavam naturalmente obrigados a
trabalhar em benefício de seus amos. Não é muito difícil encontrar, ainda hoje,
essa mesma atitude entre os terratenentes brancos de qualquer lugar do mundo. E
o menor salário das raças inferiores pelo mesmo trabalho dos brancos,
nos atuais centros capitalistas, não poderia ser, tampouco, explicado sem
recorrer-se à classificação social racista da população do mundo. Em outras
palavras, separadamente da colonialidade do poder capitalista mundial.
O controle do trabalho
no novo padrão de poder mundial constituiu-se, assim, articulando todas as
formas históricas de controle do trabalho em torno da relação capital-trabalho
assalariado, e desse modo sob o domínio desta. Mas tal articulação foi
constitutivamente colonial, pois se baseou, primeiro, na adscrição de todas as
formas de trabalho não remunerado às raças colonizadas, originalmente índios,
negros e de modo mais complexo, os mestiços, na América e mais tarde
às demais raças colonizadas no resto do mundo, oliváceos e amarelos.
E, segundo, na adscrição do trabalho pago, assalariado, à raça colonizadora, os
brancos.
Essa colonialidade do controle do trabalho
determinou a distribuição geográfica de cada uma das formas integradas no
capitalismo mundial. Em outras palavras, determinou a geografia social do
capitalismo: o capital, na relação social de controle do trabalho assalariado,
era o eixo em torno do qual se articulavam todas as demais formas de controle do
trabalho, de seus recursos e de seus produtos. Isso o tornava dominante sobre
todas elas e dava caráter capitalista ao conjunto de tal estrutura de controle
do trabalho. Mas ao mesmo tempo, essa relação social específica foi
geograficamente concentrada na Europa, sobretudo, e socialmente entre os
europeus em todo o mundo do capitalismo. E nessa medida e dessa maneira, a
Europa e o europeu se constituíram no centro do mundo capitalista.
Quando Raúl Prebisch criou a célebre imagem
de “Centro-Periferia” (The American Economic Review, 1959; ECLA, 1960;
Baer, 1962), para descrever a configuração mundial do capitalismo depois da
Segunda Guerra Mundial, apontou, sabendo-o ou sem saber, o núcleo principal do
caráter histórico do padrão de controle do trabalho, de seus recursos e de seus
produtos, que formava parte central do novo padrão mundial de poder constituído
a partir da América. O capitalismo mundial foi, desde o início,
colonial/moderno e eurocentrado. Sem relação clara com essas específicas
características históricas do capitalismo, o próprio conceito de “moderno
sistema-mundo” desenvolvido, principalmente, por Immanuel Wallerstein
(1974-1989; Hopkins e Wallerstein, 1982) a partir de Prebisch e do conceito
marxiano de capitalismo mundial, não poderia ser apropriada e plenamente
entendido.
Novo padrão de poder
mundial e nova inter-subjetividade mundial
Já em sua condição de centro do capitalismo
mundial, a Europa não somente tinha o controle do mercado mundial, mas pôde
impor seu domínio colonial sobre todas as regiões e populações do planeta,
incorporando-as ao “sistema-mundo” que assim se constituía, e a seu padrão
específico de poder. Para tais regiões e populações, isso implicou um processo
de re-identificação histórica, pois da Europa foram-lhes atribuídas
novas identidades geoculturais. Desse modo, depois da América e da Europa,
foram estabelecidas África, Ásia e eventualmente Oceania. Na produção dessas
novas identidades, a colonialidade do novo padrão de poder foi, sem dúvida, uma
das mais ativas determinações. Mas as formas e o nível de desenvolvimento
político e cultural, mais especificamente intelectual, em cada caso,
desempenharam também um papel de primeiro plano. Sem esses fatores, a categoria
Oriente não teria sido elaborada como a única com a dignidade suficiente
para ser o Outro, ainda que por definição inferior, de Ocidente, sem que
alguma equivalente fosse criada para índios ou negros9.
Mas esta mesma omissão põe a nu que esses outros fatores atuaram também dentro
do padrão racista de classificação social universal da população mundial.
A incorporação de tão
diversas e heterogêneas histórias culturais a um único mundo dominado pela
Europa, significou para esse mundo uma configuração cultural, intelectual, em
suma intersubjetiva, equivalente à articulação de todas as formas de controle
do trabalho em torno do capital, para estabelecer o capitalismo mundial. Com
efeito, todas as experiências, histórias, recursos e produtos culturais
terminaram também articulados numa só ordem cultural global em torno da
hegemonia européia ou ocidental. Em outras palavras, como parte do novo padrão
de poder mundial, a Europa também concentrou sob sua hegemonia o controle de
todas as formas de controle da subjetividade, da cultura, e em especial do
conhecimento, da produção do conhecimento.
No processo que levou a
esse resultado, os colonizadores exerceram diversas operações que dão conta das
condições que levaram à configuração de um novo universo de relações
intersubjetivas de dominação entre a Europa e o europeu e as demais regiões e
populações do mundo, às quais estavam sendo atribuídas, no mesmo processo,
novas identidades geoculturais. Em primeiro lugar, expropriaram as populações
colonizadas –entre seus descobrimentos culturais– aqueles que resultavam mais
aptos para o desenvolvimento do capitalismo e em benefício do centro europeu.
Em segundo lugar, reprimiram tanto como puderam, ou seja, em variáveis medidas
de acordo com os casos, as formas de produção de conhecimento dos colonizados,
seus padrões de produção de sentidos, seu universo simbólico, seus padrões de
expressão e de objetivação da subjetividade. A repressão neste campo foi
reconhecidamente mais violenta, profunda e duradoura entre os índios da América
ibérica, a que condenaram a ser uma subcultura camponesa, iletrada,
despojando-os de sua herança intelectual objetivada. Algo equivalente ocorreu
na África. Sem dúvida muito menor foi a repressão no caso da Ásia, onde
portanto uma parte importante da história e da herança intelectual, escrita,
pôde ser preservada. E foi isso, precisamente, o que deu origem à categoria de
Oriente. Em terceiro lugar, forçaram –também em medidas variáveis em cada caso–
os colonizados a aprender parcialmente a cultura dos dominadores em tudo que
fosse útil para a reprodução da dominação, seja no campo da atividade material,
tecnológica, como da subjetiva, especialmente religiosa. É este o caso da
religiosidade judaico-cristã. Todo esse acidentado processo implicou no longo
prazo uma colonização das perspectivas cognitivas, dos modos de produzir ou
outorgar sentido aos resultados da experiência material ou intersubjetiva, do
imaginário, do universo de relações intersubjetivas do mundo; em suma, da
cultura10.
Enfim, o êxito da Europa Ocidental em
transformar-se no centro do moderno sistema-mundo, segundo a apta formulação de
Wallerstein, desenvolveu nos europeus um traço comum a todos os dominadores
coloniais e imperiais da história, o etnocentrismo. Mas no caso europeu
esse traço tinha um fundamento e uma justificação peculiar: a classificação
racial da população do mundo depois da América. A associação entre ambos os
fenômenos, o etnocentrismo colonial e a classificação racial universal, ajudam
a explicar por que os europeus foram levados a sentir-se não só superiores a
todos os demais povos do mundo, mas, além disso, naturalmente superiores.
Essa instância histórica expressou-se numa operação mental de fundamental
importância para todo o padrão de poder mundial, sobretudo com respeito às
relações intersubjetivas que lhe são hegemônicas e em especial de sua
perspectiva de conhecimento: os europeus geraram uma nova perspectiva temporal
da história e re-situaram os povos colonizados, bem como a suas respectivas
histórias e culturas, no passado de uma trajetória histórica cuja culminação
era a Europa (Mignolo, 1995; Blaut, 1993; Lander, 1997). Porém, notavelmente,
não numa mesma linha de continuidade com os europeus, mas em outra categoria
naturalmente diferente. Os povos colonizados eram raças inferiores e
–portanto– anteriores aos europeus.
De acordo com essa
perspectiva, a modernidade e a racionalidade foram imaginadas como experiências
e produtos exclusivamente europeus. Desse ponto de vista, as relações
intersubjetivas e culturais entre a Europa, ou, melhor dizendo, a Europa Ocidental,
e o restante do mundo, foram codificadas num jogo inteiro de novas categorias:
Oriente-Ocidente, primitivo-civilizado, mágico/mítico-científico,
irracional-racional, tradicional-moderno. Em suma, Europa e não-Europa. Mesmo
assim, a única categoria com a devida honra de ser reconhecida como o Outro da
Europa ou “Ocidente”, foi “Oriente”. Não os “índios” da América, tampouco os
“negros” da África. Estes eran simplesmente “primitivos”. Sob essa codificação
das relações entre europeu/não-europeu, raça é, sem dúvida, a categoria básica11.
Essa perspectiva binária, dualista, de conhecimento, peculiar ao eurocentrismo,
impôs-se como mundialmente hegemônica no mesmo fluxo da expansão do domínio
colonial da Europa sobre o mundo. Não seria possível explicar de outro modo,
satisfatoriamente em todo caso, a elaboração do eurocentrismo como perspectiva
hegemônica de conhecimento, da versão eurocêntrica da modernidade e seus dois
principais mitos fundacionais: um, a idéia-imagem da história da civilização
humana como uma trajetória que parte de um estado de natureza e culmina na
Europa. E dois, outorgar sentido às diferenças entre Europa e não-Europa como
diferenças de natureza (racial) e não de história do poder. Ambos os mitos
podem ser reconhecidos, inequivocamente, no fundamento do evolucionismo e do
dualismo, dois dos elementos nucleares do eurocentrismo.
A questão da modernidade
Não me proponho aqui a entrar numa discussão
detida da questão da modernidade e de sua versão eurocêntrica. Dediquei
anteriormente outros estudos a esse tema e voltarei a ele depois. Em
particular, não prolongarei este trabalho com uma discussão acerca do debate
modernidade-pós-modernidade e sua vasta bibliografia. Mas é pertinente, para os
fins deste trabalho, em especial da parte seguinte, insistir em algumas
questões (Quijano, 1988b; 1992a; 1998a).
O fato de que os europeus ocidentais
imaginaram ser a culminação de uma trajetória civilizatória desde um estado de
natureza, levou-os também a pensar-se como os modernos da humanidade e
de sua história, isto é, como o novo e ao mesmo tempo o mais avançado
da espécie. Mas já que ao mesmo tempo atribuíam ao restante da espécie o
pertencimento a uma categoria, por natureza, inferior e por isso anterior, isto
é, o passado no processo da espécie, os europeus imaginaram também serem não
apenas os portadores exclusivos de tal modernidade, mas igualmente seus
exclusivos criadores e protagonistas. O notável disso não é que os europeus se
imaginaram e pensaram a si mesmos e ao restante da espécie desse modo –isso não
é um privilégio dos europeus– mas o fato de que foram capazes de difundir e de
estabelecer essa perspectiva histórica como hegemônica dentro do novo universo
intersubjetivo do padrão mundial do poder.
Desde logo, a
resistência intelectual a essa perspectiva histórica não tardou em emergir. Na
América Latina, desde fins do século XIX, mas se afirmou sobretudo durante o
século XX e em especial depois da Segunda Guerra Mundial, vinculada com o
debate sobre a questão do desenvolvimento-subdesenvolvimento. Como esse debate
foi dominado durante um bom tempo pela denominada teoria da modernização12,
em suas vertentes opostas, para sustentar que a modernização não implica
necessariamente a ocidentalização das sociedades e das culturas não-européias, um
dos argumentos mais usados foi o de que a modernidade é um fenômeno de todas as
culturas, não apenas da européia ou ocidental.
Se o conceito de modernidade refere-se única
ou fundamentalmente às idéias de novidade, do avançado, do racional-científico,
laico, secular, que são as idéias e experiências normalmente associadas a esse
conceito, não cabe dúvida de que é necessário admitir que é um fenômeno
possível em todas as culturas e em todas as épocas históricas. Com todas as
suas respectivas particularidades e diferenças, todas as chamadas altas
culturas (China, Índia, Egito, Grécia, Maia-Asteca, Tauantinsuio)
anteriores ao atual sistema-mundo, mostram inequivocamente os sinais dessa
modernidade, incluído o racional científico, a secularização do pensamento,
etc. Na verdade, a estas alturas da pesquisa histórica seria quase ridículo
atribuir às altas culturas não-européias uma mentalidade mítico-mágica como
traço definidor, por exemplo, em oposição à racionalidade e à ciência como
características da Europa, pois além dos possíveis ou melhor conjecturados
conteúdos simbólicos, as cidades, os templos e palácios, as pirâmides, ou as
cidades monumentais, seja Machu Pichu ou Boro Budur, as irrigações, as grandes
vias de transporte, as tecnologias metalíferas, agropecuárias, as matemáticas,
os calendários, a escritura, a filosofia, as histórias, as armas e as guerras,
mostram o desenvolvimento científico e tecnológico em cada uma de tais altas
culturas, desde muito antes da formação da Europa como nova id-entidade. O mais
que realmente se pode dizer é que, no atual período, foi-se mais longe no
desenvolvimento científico-tecnológico e se realizaram maiores descobrimentos e
realizações, com o papel hegemônico da Europa e, em geral, do Ocidente.
Os defensores da patente européia da
modernidade costumam apelar para história cultural do antigo mundo
heleno-românico e ao mundo do Mediterrâneo antes da América, para legitimar sua
defesa da exclusividade dessa patente. O que é curioso desse argumento é que
escamoteia, primeiro, o fato de que a parte realmente avançada desse mundo do
Mediterrâneo, antes das América, área por área dessa modernidade, era
islâmico-judaica. Segundo, que foi dentro desse mundo que se manteve a herança
cultural greco-romana, as cidades, o comércio, a agricultura comercial, a
mineração, os têxteis, a filosofia, a história, quando a futura Europa
Ocidental estava dominada pelo feudalismo e seu obscurantismo cultural.
Terceiro que, muito provavelmente, a mercantilização da força de trabalho, a
relação capital-salário, emergiu, precisamente, nessa área e foi em seu
desenvolvimento que se expandiu posteriormente em direção ao norte da futura
Europa. Quarto, que somente a partir da derrota do Islão e do posterior
deslocamento da hegemonia sobre o mercado mundial para o centro-norte da futura
Europa, graças à América, começa também a deslocar-se ao centro da atividade
cultural a essa nova região. Por isso, a nova perspectiva geográfica da
história e da cultura, que ali é elaborada e que se impõe como mundialmente
hegemônica, implica, obviamente, uma nova geografia do poder. A própria idéia
de Ocidente-Oriente é tardia e parte da hegemonia britânica. Ou ainda é
necessário recordar que o meridiano de Greenwich atravessa Londres e não
Sevilha ou Veneza?13.
Nesse sentido, a pretensão eurocêntrica de
ser a exclusiva produtora e protagonista da modernidade, e de que toda
modernização de populações não-européias é, portanto, uma europeização, é uma
pretensão etnocentrista e além de tudo provinciana. Porém, por outro lado, se
se admite que o conceito de modernidade se refere somente à racionalidade, à
ciência, à tecnologia, etc., a questão que estaríamos colocando à experiência
histórica não seria diferente da proposta pelo etnocentrismo europeu, o debate
consistiria apenas na disputa pela originalidade e pela exclusividade da
propriedade do fenômeno assim chamado modernidade, e, em conseqüência,
movendo-se no mesmo terreno e com a mesma perspectiva do eurocentrismo.
Há, contudo, um conjunto de elementos
demonstráveis que apontam para um conceito de modernidade diferente, que dá
conta de um processo histórico específico ao atual sistema-mundo. Nesse
conceito não estão, obviamente, ausentes suas referencias e seus traços
anteriores. Porém mais enquanto formam parte de um universo de relações
sociais, materiais e intersubjetivas, cuja questão central é a libertação
humana como interesse histórico da sociedade e também, em conseqüência, seu
campo central de conflito. Nos limites deste trabalho, restringir-me-ei somente
a adiantar, de modo breve e esquemático, algumas proposições14.
Em primeiro lugar, o
atual padrão de poder mundial é o primeiro efetivamente global da história
conhecida. Em vários sentidos específicos. Um, é o primeiro em que cada um dos
âmbitos da existência social estão articuladas todas as formas historicamente
conhecidas de controle das relações sociais correspondentes, configurando em
cada área um única estrutura com relações sistemáticas entre seus componentes e
do mesmo modo em seu conjunto. Dois, é o primeiro em que cada uma dessas
estruturas de cada âmbito de existência social, está sob a hegemonia de uma
instituição produzida dentro do processo de formação e desenvolvimento deste
mesmo padrão de poder. Assim, no controle do trabalho, de seus recursos e de
seus produtos, está a empresa capitalista; no controle do sexo, de seus
recursos e produtos, a família burguesa; no controle da autoridade, seus
recursos e produtos, o Estado-nação; no controle da intersubjetividade, o
eurocentrismo15. Três, cada uma dessas instituições existe em
relações de interdependência com cada uma das outras. Por isso o padrão de
poder está configurado como um sistema16. Quatro, finalmente, este
padrão de poder mundial é o primeiro que cobre a totalidade da população do
planeta.
Nesse sentido específico, a humanidade atual
em seu conjunto constitui o primeiro sistema-mundo global historicamente
conhecido, não somente um mundo como o que talvez tenham sido o chinês,
o hindu, o egípcio, o helênico-romano, o maia-asteca ou o tauantinsuiano.
Nenhum desses possíveis mundos teve nada em comum exceto um dominador
colonial/imperial e, apesar de que assim se propõe da visão colonial
eurocêntrica, não se sabe se todos os povos incorporados a um daqueles mundos
tiveram também em comum uma perspectiva básica a respeito das relações entre o
humano e o restante do universo. Os dominadores coloniais de cada um desses
mundos não tinham as condições, nem provavelmente o interesse, de homogeneizar
as formas básicas de existência social de todas as populações de seus domínios.
Por outro lado, o atual, o que começou a formar-se com a América, tem em comum
três elementos centrais que afetam a vida cotidiana da totalidade da população
mundial: a colonialidade do poder, o capitalismo e o
eurocentrismo. Claro que este padrão de poder, nem nenhum outro, pode
implicar que a heterogeneidade histórico-estrutural tenha sido erradicada
dentro de seus domínios. O que sua globalidade implica é um piso básico de
práticas sociais comuns para todo o mundo, e uma esfera intersubjetiva que
existe e atua como esfera central de orientação valorativa do conjunto. Por
isso as instituições hegemônicas de cada âmbito de existência social, são
universais para a população do mundo como modelos intersubjetivos. Assim, o
Estado-nação, a família burguesa, a empresa, a racionalidade eurocêntrica.
Portanto, seja o que for a mentira contida no
termo “modernidade”, hoje envolve o conjunto da população mundial e toda sua
história dos últimos 500 anos, e todos os mundos ou ex-mundos articulados no
padrão global de poder, e cada um de seus segmentos diferenciados ou
diferenciáveis, pois se constituiu junto com, como parte da redefinição ou
reconstituição histórica de cada um deles por sua incorporação ao novo e comum
padrão de poder mundial. Portanto, também como articulação de muitas
racionalidades. Em outras palavras, já que se trata de uma história nova e
diferente, com experiências específicas, as questões que esta história permite
e obriga a abrir não podem ser indagadas, muito menos contestadas, com o
conceito eurocêntrico de modernidade. Pela mesma razão, dizer que é um fenômeno
puramente europeu ou que ocorre em todas as culturas, teria hoje um impossível
sentido. Trata-se de algo novo e diferente, específico deste padrão de poder mundial.
Se há que preservar o nome, deve tratar-se, de qualquer modo, de outra
modernidade.
A questão central que
nos interessa aqui é a seguinte: o que é o realmente novo com relação à
modernidade? Não somente o que desenvolve e redefine experiências, tendências e
processos de outros mundos, mas o que foi produzido na história própria do
atual padrão de poder mundial?
Dussel (1995) propôs a categoria de transmodernidade
como alternativa para a pretensão eurocêntrica de que a Europa é a
produtora original da modernidade. Segundo essa proposta, a constituição do ego
individual diferenciado é a novidade que ocorre com a América e é a marca da
modernidade, mas tem lugar não só na Europa mas em todo o mundo que se
configura a partir da América. Dussel acerta no alvo ao refutar um dos mitos
prediletos do eurocentrismo. Mas é controverso que o ego individual
diferenciado seja um fenômeno exclusivamente pertencente ao período iniciado
com a América.
Há, claro, uma relação umbilical entre os
processos históricos que se geram a partir da América e as mudanças da
subjetividade ou, melhor dito, da intersubjetividade de todos os povos que se
vão integrando no novo padrão de poder mundial. E essas transformações levam à
constituição de uma nova subjetividade, não só individual, mas coletiva, de uma
nova intersubjetividade. Esse é, portanto, um fenômeno novo que ingressa na
história com a América e nesse sentido faz parte da modernidade. Mas quaisquer
que fossem, essas mudanças não se constituem da subjetividade individual, nem
coletiva, do mundo pré-existente, voltada para si mesma, ou, para repetir a
velha imagem, essas mudanças não nascem como Minerva, da cabeça de Zeus, mas
são a expressão subjetiva ou intersubjetiva do que os povos do mundo estão
fazendo nesse momento.
Dessa perspectiva, é necessário admitir que a
América e suas conseqüências imediatas no mercado mundial e na formação de um
novo padrão de poder mundial, são uma mudança histórica verdadeiramente
enorme e que não afeta somente a Europa, mas o conjunto do mundo. Não se trata
de mudanças dentro do mundo conhecido, que não alteram senão alguns de seus
traços. Trata-se da mudança do mundo como tal. Este é, sem dúvida, o
elemento básico da nova subjetividade: a percepção da mudança histórica. É
esse elemento o que desencadeia o processo de constituição de uma nova
perspectiva sobre o tempo e sobre a história. A percepção da mudança leva à
idéia do futuro, já que é o único território do tempo no qual podem ocorrer as
mudanças. O futuro é um território temporal aberto. O tempo pode ser novo, pois
não é somente a extensão do passado. E, dessa maneira, a história pode ser
percebida já não só como algo que ocorre, seja como algo natural ou produzido
por decisões divinas ou misteriosas como o destino, mas como algo que pode ser
produzido pela ação das pessoas, por seus cálculos, suas intenções, suas
decisões, portanto como algo que pode ser projetado e, conseqüentemente, ter
sentido (Quijano, 1988b).
Com a América inicia-se, assim, todo um
universo de novas relações materiais e intersubjetivas. É pertinente, por tudo
isso, admitir que o conceito de modernidade não se refere somente ao que ocorre
com a subjetividade, não obstante toda a tremenda importância desse processo,
seja pela emergência do ego individual, ou de um novo universo de relações
intersubjetivas entre os indivíduos e entre os povos integrados ou que se
integram no novo sistema-mundo e seu específico padrão de poder mundial. O
conceito de modernidade dá conta, do mesmo modo, das alterações na dimensão
material das relações sociais. Quer dizer, as mudanças ocorrem em todos os
âmbitos da existência social dos povos, e portanto de seus membros individuais,
tanto na dimensão material como na dimensão subjetiva dessas relações. E como
se trata de processos que se iniciam com a constituição da América, de um novo
padrão de poder mundial e da integração dos povos de todo o mundo nesse
processo, de todo um complexo sistema-mundo, é também imprescindível admitir
que se trata de um período histórico inteiro. Em outras palavras, a partir da
América um novo espaço/tempo se constitui, material e subjetivamente: essa é a
mentira do conceito de modernidade.
Não obstante, foi decisivo para o processo de
modernidade que o centro hegemônico desse mundo estivesse localizado na zona
centro-norte da Europa Ocidental. Isso ajuda a explicar por que o centro de
elaboração intelectual desse processo se localizará também ali, e por que essa
versão foi a que ganhou a hegemonia mundial. Ajuda igualmente a explicar por
que a colonialidade do poder desempenhará um papel de primeira ordem nessa
elaboração eurocêntrica da modernidade. Este último não é muito difícil de
perceber se se leva em consideração o que já foi demonstrado antes, o modo como
a colonialidade do poder está vinculada com a concentração na Europa do
capital, dos assalariados, do mercado de capital, enfim, da sociedade e da
cultura associadas a essas determinações. Nesse sentido, a modernidade foi
também colonial desde seu ponto de partida. Mas ajuda também a entender por que
foi na Europa muito mais direto e imediato o impacto do processo mundial de
modernização.
Com efeito, as novas práticas sociais
implicadas no padrão de poder mundial, capitalista, a concentração do capital e
dos assalariados, o novo mercado de capital, tudo isso associado à nova
perspectiva sobre o tempo e sobre a história, à centralidade da questão da
mudança histórica nessa perspectiva, como experiência e como idéia, requerem,
necessariamente, a dessacralização das hierarquias e das autoridades, tanto na
dimensão material das relações sociais como em sua intersubjetividade; a
dessacralização, a mudança ou o desmantelamento das correspondentes estruturas
e instituições. A individualização das pessoas só adquire seu sentido nesse
contexto, a necessidade de um foro próprio para pensar, para duvidar, para
decidir; a liberdade individual, em suma, contra as adscrições sociais fixadas
e em conseqüência a necessidade de igualdade social entre os indivíduos.
As determinações capitalistas, contudo,
exigiam também, e no mesmo movimento histórico, que esses processos sociais,
materiais e intersubjetivos, não tivessem lugar exceto dentro de relações
sociais de exploração e de dominação. Conseqüentemente, como um campo de
conflitos pela orientação, isto é, os fins, os meios e os limites desses
processos. Para os controladores do poder, o controle do capital e do mercado
eram e são os que decidem os fins, os meios e os limites do processo. O mercado
é o mínimo, mas também o limite da possível igualdade social entre as pessoas.
Para os explorados do capital e em geral para os dominados do padrão de poder,
a modernidade gerou um horizonte de libertação das pessoas de toda relação,
estrutura ou instituição vinculada com a dominação e a exploração, mas também
as condições sociais para avançar em direção a esse horizonte. A modernidade é,
assim, também uma questão de conflito de interesses sociais. Um deles é a
contínua democratização da existência social das pessoas. Nesse sentido, todo
conceito de modernidade é necessariamente ambíguo e contraditório (Quijano,
1998a; 2000a).
É ali, precisamente, onde a história desses
processos diferencia tão claramente a Europa Ocidental e o resto do mundo, no
caso a América Latina. Na Europa Ocidental, a concentração da relação
capital-salário é o eixo principal das tendências das relações de classificação
social e da correspondente estrutura de poder. Isso subjaz aos enfrentamentos
com a antiga ordem, com o Império, com o Papado, durante o período do chamado
capital competitivo. Esses enfrentamentos permitem aos setores não dominantes
do capital –bem como aos explorados– melhores condições de negociar seu lugar
no poder e a venda de sua força de trabalho. Por outro lado, abre também
condições para uma secularização especificamente burguesa da cultura e da
subjetividade. O liberalismo é uma das claras expressões desse contexto
material e subjetivo da sociedade na Europa Ocidental. Já no resto do mundo, na
América Latina em particular, as formas mais estendidas de controle do trabalho
são não-salariais, ainda que em benefício global do capital, o que implica que
as relações de exploração e de dominação têm caráter colonial. A independência
política, desde inícios do século XIX, está acompanhada na maioria dos novos
países pelo estancamento e retrocesso do capital e fortalece o caráter colonial
da dominação social e política sob Estados formalmente independentes. O
eurocentramento do capitalismo colonial/moderno, foi nesse sentido decisivo
para o destino diferente do processo da modernidade entre a Europa e o resto do
mundo (Quijano, 1988b; 1994).
II. Colonialidade do poder e eurocentrismo
A elaboração intelectual do processo de
modernidade produziu uma perspectiva de conhecimento e um modo de produzir
conhecimento que demonstram o caráter do padrão mundial de poder:
colonial/moderno, capitalista e eurocentrado. Essa perspectiva e modo concreto
de produzir conhecimento se reconhecem como eurocentrismo17.
Eurocentrismo é, aqui, o nome de uma
perspectiva de conhecimento cuja elaboração sistemática começou na Europa
Ocidental antes de mediados do século XVII, ainda que algumas de suas raízes
são sem dúvida mais velhas, ou mesmo antigas, e que nos séculos seguintes se
tornou mundialmente hegemônica percorrendo o mesmo fluxo do domínio da Europa
burguesa. Sua constituição ocorreu associada à específica secularização
burguesa do pensamento europeu e à experiência e às necessidades do padrão
mundial de poder capitalista, colonial/moderno, eurocentrado, estabelecido a
partir da América.
Não se trata, em conseqüência, de uma
categoria que implica toda a história cognoscitiva em toda a Europa, nem na
Europa Ocidental em particular. Em outras palavras, não se refere a todos os
modos de conhecer de todos os europeus e em todas as épocas, mas a uma
específica racionalidade ou perspectiva de conhecimento que se torna
mundialmente hegemônica colonizando e sobrepondo-se a todas as demais, prévias
ou diferentes, e a seus respectivos saberes concretos, tanto na Europa como no
resto do mundo. No âmbito deste trabalho, proponho-me a discutir algumas de
suas questões mais diretamente vinculadas com a experiência histórica da
América Latina, mas que, obviamente, não se referem somente a ela.
Capital e capitalismo
Antes que mais nada, a teoria de uma
seqüência histórica unilinear e universalmente válida entre as formas
conhecidas de trabalho e de controle do trabalho, que foram também
conceitualizadas como relações ou modos de produção, especialmente entre
capital e pré-capital, precisa ser, em todo caso com respeito à América, aberta
de novo como questão maior do debate científico-social contemporâneo.
Do ponto de vista eurocêntrico,
reciprocidade, escravidão, servidão e produção mercantil independente são todas
percebidas como uma seqüência histórica prévia à mercantilização da força de
trabalho. São pré-capital. E são consideradas não só como diferentes mas como
radicalmente incompatíveis com o capital. O fato é, contudo, que na América
elas não emergiram numa seqüência histórica unilinear; nenhuma delas foi uma
mera extensão de antigas formas pré-capitalistas, nem foram tampouco
incompatíveis com o capital.
Na América a escravidão foi deliberadamente
estabelecida e organizada como mercadoria para produzir mercadorias para o
mercado mundial e, desse modo, para servir aos propósitos e necessidades do
capitalismo. Do mesmo modo, a servidão imposta aos índios, inclusive a
redefinição das instituições da reciprocidade, para servir os mesmos fins, isto
é, para produzir mercadorias para o mercado mundial. E enfim, a produção mercantil
independente foi estabelecida e expandida para os mesmos propósitos.
Isso significa que todas essas formas de
trabalho e de controle do trabalho na América não só atuavam simultaneamente,
mas foram articuladas em torno do eixo do capital e do mercado mundial.
Conseqüentemente, foram parte de um novo padrão de organização e de controle do
trabalho em todas as suas formas historicamente conhecidas, juntas e em torno
do capital. Juntas configuraram um novo sistema: o capitalismo.
O capital, como relação social baseada na
mercantilização da força de trabalho, nasceu provavelmente em algum momento por
volta dos séculos XI-XII, em algum lugar na região meridional das penínsulas
ibérica e/ou itálica e conseqüentemente, e por conhecidas razões, no mundo
islâmico. É pois bastante mais antigo que a América. Mas antes da emergência da
América, não está em nenhum lugar estruturalmente articulado com todas as
demais formas de organização e controle da força de trabalho e do trabalho, nem
tampouco era ainda predominante em relação a nenhuma delas. Só com a América
pôde o capital consolidar-se e obter predominância mundial, tornando-se
precisamente o eixo em torno do qual todas as demais formas foram articuladas
para os fins do mercado mundial. Somente desse modo o capital transformou-se no
modo de produção dominante. Assim, o capital existiu muito tempo antes que a
América. Contudo, o capitalismo como sistema de relações de produção, isto é, a
heterogênea engrenagem de todas as formas de controle do trabalho e de seus produtos
sob o domínio do capital, no que dali em diante consistiu a economia mundial e
seu mercado, constituiu-se na história apenas com a emergência da América. A
partir desse momento, o capital sempre existiu e continua existindo hoje em dia
só como o eixo central do capitalismo, não de maneira separada, muito menos
isolada. Nunca foi predominante de outro modo, em escala mundial e global, e
com toda probabilidade não teria podido desenvolver-se de outro modo.
Evolucionismo e dualismo
Como no caso das relações entre capital e
pré-capital, uma linha similar de idéias foi elaborada acerca das relações
entre Europa e não-Europa. Como já foi apontado, o mito fundacional da versão
eurocêntrica da modernidade é a idéia do estado de natureza como ponto de
partida do curso civilizatório cuja culminação é a civilização européia ou
ocidental. Desse mito se origina a especificamente eurocêntrica perspectiva
evolucionista, de movimento e de mudança unilinear e unidirecional da história
humana. Tal mito foi associado com a classificação racial da população do
mundo. Essa associação produziu uma visão na qual se amalgamam, paradoxalmente,
evolucionismo e dualismo. Essa visão só adquire sentido como expressão do
exacerbado etnocentrismo da recém constituída Europa, por seu lugar central e
dominante no capitalismo mundial colonial/moderno, da vigência nova das idéias
mitificadas de humanidade e de progresso, inseparáveis produtos da Ilustração,
e da vigência da idéia de raça como critério básico de classificação social
universal da população do mundo.
A história é, contudo, muito distinta. Por um
lado, no momento em que os ibéricos conquistaram, nomearam e colonizaram a
América (cuja região norte ou América do Norte, colonizarão os britânicos um
século mais tarde), encontraram um grande número de diferentes povos, cada um
com sua própria história, linguagem, descobrimentos e produtos culturais,
memória e identidade. São conhecidos os nomes dos mais desenvolvidos e
sofisticados deles: astecas, maias, chimus, aimarás, incas, chibchas, etc.
Trezentos anos mais tarde todos eles reduziam-se a uma única identidade: índios.
Esta nova identidade era racial, colonial e negativa. Assim também sucedeu com
os povos trazidos forçadamente da futura África como escravos: achantes,
iorubás, zulus, congos, bacongos, etc. No lapso de trezentos anos, todos eles
não eram outra coisa além de negros.
Esse resultado da história do poder colonial
teve duas implicações decisivas. A primeira é óbvia: todos aqueles povos foram
despojados de suas próprias e singulares identidades históricas. A segunda é,
talvez, menos óbvia, mas não é menos decisiva: sua nova identidade racial,
colonial e negativa, implicava o despojo de seu lugar na história da produção
cultural da humanidade. Daí em diante não seriam nada mais que raças
inferiores, capazes somente de produzir culturas inferiores. Implicava também
sua relocalização no novo tempo histórico constituído com a América primeiro e
com a Europa depois: desse momento em diante passaram a ser o passado.
Em outras palavras, o padrão de poder baseado na colonialidade implicava também
um padrão cognitivo, uma nova perspectiva de conhecimento dentro da qual o
não-europeu era o passado e desse modo inferior, sempre primitivo.
Por outro lado, a primeira identidade geocultural
moderna e mundial foi a América. A Europa foi a segunda e foi constituída como
conseqüência da América, não o inverso. A constituição da Europa como nova
entidade/identidade histórica fez-se possível, em primeiro lugar, com o
trabalho gratuito dos índios, negros e mestiços da América, com sua avançada
tecnologia na mineração e na agricultura, e com seus respectivos produtos, o
ouro, a prata, a batata, o tomate, o tabaco, etc., etc. (Viola e Margolis,
1991). Porque foi sobre essa base que se configurou uma região como sede do
controle das rotas atlânticas, por sua vez convertidas, precisamente sobre essa
mesma base, nas rotas decisivas do mercado mundial. Essa região não tardou em
emergir como Europa. América e Europa produziram-se historicamente, assim,
mutuamente, como as duas primeiras novas identidades geoculturais do mundo
moderno.
Contudo, os europeus persuadiram-se a si
mesmos, desde meados do século XVII, mas sobretudo durante o século XVIII, não
só de que de algum modo se tinham autoproduzido a si mesmos como civilização, à
margem da história iniciada com a América, culminando uma linha independente
que começava com a Grécia como única fonte original. Também concluíram que eram
naturalmente (isto é, racialmente) superiores a todos os demais, já que tinham
conquistado a todos e lhes tinham imposto seu domínio.
O confronto entre a
experiência histórica e a perspectiva eurocêntrica de conhecimento permite
apontar alguns dos elementos mais importantes do eurocentrismo: a) uma
articulação peculiar entre um dualismo (pré-capital-capital, não
europeu-europeu, primitivo-civilizado, tradicional-moderno, etc.) e um
evolucionismo linear, unidirecional, de algum estado de natureza à sociedade
moderna européia; b) a naturalização das diferenças culturais entre grupos
humanos por meio de sua codificação com a idéia de raça; e c) a distorcida
relocalização temporal de todas essas diferenças, de modo que tudo aquilo que é
não-europeu é percebido como passado. Todas estas operações intelectuais são
claramente interdependentes. E não teriam podido ser cultivadas e desenvolvidas
sem a colonialidade do poder.
Homogeneidade/continuidade
e heterogeneidade/descontinuidade
Como é verificável agora, a perspectiva
eurocêntrica de conhecimento, devido a sua crise radical, é hoje um campo
pletórico de questões. Aqui é pertinente ainda deixar registradas duas delas.
Primeiro, uma idéia da mudança histórica como um processo ou um momento no qual
uma entidade ou unidade se transforma de maneira continua, homogênea e completa
em outra coisa e abandona de maneira absoluta a cena histórica. Isto permite à
outra entidade equivalente ocupar o lugar, e tudo isto continua numa cadeia
seqüencial. De outro modo não teria sentido, nem lugar, a idéia da história
como uma evolução unidirecional e unilinear. Segundo, dali se desprende que
cada unidade diferenciada, por exemplo uma “economia/sociedade” ou um “modo de
produção” no caso do controle do trabalho (capital ou escravidão) ou uma
“raça/civilização” no caso de grupos humanos, é uma entidade/identidade
homogênea. São, cada uma, estruturas de elementos homogêneos relacionados de
maneira contínua e sistêmica (o que é distinto de sistemática).
A experiência histórica demostra, contudo,
que o capitalismo mundial está longe de ser uma totalidade homogênea e
contínua. Ao contrário, como o demonstra a América, o padrão de poder mundial
que se conhece como capitalismo é, fundamentalmente, uma estrutura de elementos
heterogêneos, tanto em termos das formas de controle do
trabalho-recursos-produtos (ou relações de produção) ou em termos dos povos e
histórias articulados nele. Em conseqüência, tais elementos se relacionam entre
si e com o conjunto de maneira também heterogênea e descontínua, ou mesmo
conflitiva. E são eles mesmos, cada um deles, configurados da mesma maneira.
Assim, cada uma dessas
relações de produção é em si mesma uma estrutura heterogênea. Especialmente o
capital, desde que todos os estágios e formas históricas de produção de valor e
de apropriação de mais-valia (por exemplo, acumulação primitiva, mais-valia
absoluta e relativa, extensiva ou intensiva, ou em outra nomenclatura,
manufatura, capital competitivo, capital monopólico, capital transnacional ou
global, ou pré-fordista, fordista, de mão de obra intensiva, de capital intensivo,
de informação intensiva, etc., etc.) estão simultaneamente em atividade e
trabalham juntos numa complexa rede de transferência de valor e de mais-valia.
Isto é igualmente válido com relação às raças, já que tantos povos diversos e
heterogêneos, com heterogêneas histórias e tendências históricas de movimento e
de mudança foram reunidos sob uma única classificação racial, índio ou negro,
por exemplo.
Esta heterogeneidade não é simplesmente
estrutural, baseada nas relações entre elementos das mesmas época e idade. Já
que histórias diversas e heterogêneas deste tipo foram articuladas numa única
estrutura de poder, é pertinente admitir o caráter histórico-estrutural dessa
heterogeneidade. Conseqüentemente, o processo de mudança dessa totalidade
capitalista não pode, de nenhum modo, ser uma transformação homogênea e
contínua do sistema inteiro, nem tampouco de cada um de seus componentes
maiores. Tampouco poderia essa totalidade desvanecer-se completa e
homogeneamente da cena histórica e ser substituída por outra equivalente. A
mudança histórica não pode ser unilinear, unidirecional, seqüencial ou total. O
sistema, ou o padrão específico de articulação estrutural, poderia ser
desmantelado. Mas mesmo assim cada um ou alguns de seus elementos pode e haverá
de rearticular-se em algum outro padrão estrutural, como ocorreu, obviamente,
com os componentes do padrão de poder pré-colonial, digamos, no Tauantinsuiu18.
O novo dualismo
Finalmente, pelo momento
e para nossos propósitos aqui, é pertinente abrir a questão das relações entre
o corpo e o não-corpo na perspectiva eurocêntrica, tanto por sua gravitação no
modo eurocêntrico de produzir conhecimento, como devido a que em nossa
experiência tem uma estreita relação com as de raça e de gênero.
A idéia de diferenciação entre
o “corpo” e o “não-corpo” na experiência humana é virtualmente universal à
história da humanidade, comum a todas as “culturas” ou “civilizações”
historicamente conhecidas. Mas é também comum a todas –até o aparecimento do
eurocentrismo– a permanente co-presença dos dois elementos como duas dimensões
não separáveis do ser humano, em qualquer aspecto, instância ou comportamento.
O processo de separação
destes elementos do ser humano é parte de uma longa história do mundo cristão
sobre a base da idéia da primazia da “alma” sobre o “corpo”. Porém, esta
história mostra também uma longa e não resolvida ambivalência da teologia
cristã sobre este ponto em particular. Certamente, é a “alma” o objeto
privilegiado de salvação. Mas no final das contas, é o “corpo” o ressuscitado,
como culminação da salvação.
Certamente, também, foi
durante a cultura repressiva do cristianismo, como resultado dos conflitos com
muçulmanos e judeus, sobretudo entre os séculos XV e XVI, em plena Inquisição,
que a primazia da “alma” foi enfatizada, talvez exasperada. E porque o “corpo”
foi o objeto básico da repressão, a “alma” pôde aparecer quase separada das
relações intersubjetivas no interior do mundo cristão. Mas isto não foi
teorizado, ou seja, não foi sistematicamente discutido e elaborado até
Descartes, culminando no processo da secularização burguesa do pensamento
cristão19.
Com Descartes20
o que sucede é a mutação da antiga abordagem dualista sobre o “corpo” e o
“não-corpo”. O que era uma co-presença permanente de ambos os elementos em cada
etapa do ser humano, em Descartes se converte numa radical separação entre
“razão/sujeito” e “corpo”. A razão não é somente uma secularização da idéia de
“alma” no sentido teológico, mas uma mutação numa nova id-entidade, a
“razão/sujeito”, a única entidade capaz de conhecimento “racional”, em relação
à qual o “corpo” é e não pode ser outra coisa além de “objeto” de conhecimento.
Desse ponto de vista o ser humano é, por excelência, um ser dotado de “razão”,
e esse dom se concebe como localizado exclusivamente na alma. Assim o “corpo”,
por definição incapaz de raciocinar, não tem nada a ver com a razão/sujeito.
Produzida essa separação radical entre “razão/sujeito” e “corpo”, as relações
entre ambos devem ser vistas unicamente como relações entre a razão/sujeito
humana e o corpo/natureza humana, ou entre “espírito” e “natureza”. Deste modo,
na racionalidade eurocêntrica o “corpo” foi fixado como “objeto” de
conhecimento, fora do entorno do “sujeito/razão”.
Sem essa “objetivização”
do “corpo” como “natureza”, de sua expulsão do âmbito do “espírito”,
dificilmente teria sido possível tentar a teorização “científica” do problema
da raça, como foi o caso do Conde de Gobineau (1853-1857) durante o século XIX..
Dessa perspectiva eurocêntrica, certas raças são condenadas como “inferiores”
por não serem sujeitos “racionais”. São objetos de estudo, “corpo” em
conseqüência, mais próximos da “natureza”. Em certo sentido, isto os converte
em domináveis e exploráveis. De acordo com o mito do estado de natureza e da
cadeia do processo civilizatório que culmina na civilização européia, algumas
raças –negros (ou africanos), índios, oliváceos, amarelos (ou asiáticos) e
nessa seqüência– estão mais próximas da “natureza” que os brancos21.
Somente desta perspectiva peculiar foi possível que os povos não-europeus
fossem considerados, virtualmente até a Segunda Guerra Mundial, antes de tudo
como objeto de conhecimento e de dominação/exploração pelos europeus.
Esse novo e radical dualismo não afetou
somente as relações raciais de dominação, mas também a mais antiga, as relações
sexuais de dominação. Daí em diante, o lugar das mulheres, muito em especial o
das mulheres das raças inferiores, ficou estereotipado junto com o resto dos
corpos, e quanto mais inferiores fossem suas raças, mais perto da natureza ou
diretamente, como no caso das escravas negras, dentro da natureza. É provável,
ainda que a questão fique por indagar, que a idéia de gênero se tenha elaborado
depois do novo e radical dualismo como parte da perspectiva cognitiva
eurocentrista.
Durante o século XVIII,
esse novo dualismo radical foi amalgamado com as idéias mitificadas de
“progresso” e de um estado de natureza na trajetória humana, os mitos
fundacionais da versão eurocentrista da modernidade. Isto deu vazão à peculiar
perspectiva histórica dualista/evolucionista. Assim todos os não-europeus
puderam ser considerados, de um lado, como pré-europeus e ao mesmo tempo
dispostos em certa seqüência histórica e contínua do primitivo ao civilizado,
do irracional ao racional, do tradicional ao moderno, do mágico-mítico ao
científico. Em outras palavras, do não-europeu/pré-europeu a algo que com o
tempo se europeizará ou “modernizará”.
Sem considerar a
experiência inteira do colonialismo e da colonialidade, essa marca intelectual
seria dificilmente explicável, bem como a duradoura hegemonia mundial do
eurocentrismo. Somente as necessidades do capital como tal, não esgotam, não
poderiam esgotar, a explicação do caráter e da trajetória dessa perspectiva de
conhecimento.
III. Eurocentrismo e
experiência histórica na América Latina
Aplicada de maneira específica à experiência
histórica latino-americana, a perspectiva eurocêntrica de conhecimento opera
como um espelho que distorce o que reflete. Quer dizer, a imagem que encontramos
nesse espelho não é de todo quimérica, já que possuímos tantos e tão
importantes traços históricos europeus em tantos aspectos, materiais e
intersubjetivos. Mas, ao mesmo tempo, somos tão profundamente distintos. Daí
que quando olhamos nosso espelho eurocêntrico, a imagem que vemos seja
necessariamente parcial e distorcida.
Aqui a tragédia é que todos fomos conduzidos,
sabendo ou não, querendo ou não, a ver e aceitar aquela imagem como nossa e
como pertencente unicamente a nós. Dessa maneira seguimos sendo o que não
somos. E como resultado não podemos nunca identificar nossos verdadeiros
problemas, muito menos resolvê-los, a não ser de uma maneira parcial e
distorcida.
O eurocentrismo e a
“questão nacional”: o Estado-nação
Um dos exemplos mais claros desta tragédia de
equívocos na América Latina é a história da chamada questão nacional. Dito de
outro modo, do problema do moderno Estado-nação na América Latina.
Nações e Estados são um velho fenômeno.
Todavia, aquilo que chamamos de moderno Estado-nação é uma experiência muito
específica. Trata-se de uma sociedade nacionalizada e por isso politicamente
organizada como um Estado-nação. Implica as instituições modernas de cidadania
e democracia política. Ou seja, implica uma certa democracia, dado que cada processo
conhecido de nacionalização da sociedade nos tempos modernos ocorreu somente
através de uma relativa (ou seja, dentro dos limites do capitalismo) mas
importante e real democratização do controle do trabalho, dos recursos
produtivos e do controle da geração e gestão das instituições políticas. Deste
modo, a cidadania pode chegar a servir como igualdade legal, civil e política
para pessoas socialmente desiguais (Quijano, 1998a).
Um Estado-nação é uma espécie de sociedade
individualizada entre as demais. Por isso, entre seus membros pode ser sentida
como identidade. Porém, toda sociedade é uma estrutura de poder. É o poder
aquilo que articula formas de existência social dispersas e diversas numa
totalidade única, uma sociedade. Toda estrutura de poder é sempre, parcial ou
totalmente, a imposição de alguns, freqüentemente certo grupo, sobre os demais.
Conseqüentemente, todo Estado-nação possível é uma estrutura de poder, do mesmo
modo que é produto do poder. Em outros termos, do modo como foram configuradas
as disputas pelo controle do trabalho, seus recursos e produtos; do sexo, seus
recursos e produtos; da autoridade e de sua violência específica; da
intersubjetividade e do conhecimento.
Não obstante, se um Estado-nação moderno pode
expressar-se em seus membros como uma identidade, não é somente devido a que
pode ser imaginado como uma comunidade22. Os membros precisam ter em
comum algo real, não só imaginado, algo que compartilhar. E isso, em todos os
reais Estados-nação modernos, é uma participação mais ou menos democrática na
distribuição do controle do poder. Esta é a maneira específica de
homogeneização das pessoas num Estado-nação moderno. Toda homogeneização da
população de um Estado-nação moderno é desde logo parcial e temporal e consiste
na comum participação democrática no controle da geração e da gestão das
instituições de autoridade pública e de seus específicos mecanismos de
violência. Isto é, exerce-se, no fundamental, em todo o âmbito da existência
social vinculado ao Estado e que por isso se assume como o explicitamente
político. Mas tal âmbito não poderia ser democrático, isto é, implicar
cidadania como igualdade jurídica e civil de pessoas desigualmente situadas nas
relações de poder, se as relações sociais em todos os outros âmbitos da existência
social fossem radicalmente não democráticas ou antidemocráticas23.
Já que todo Estado-nação é uma estrutura de
poder, isso implica que se trata de um poder que se configura nesse sentido. O
processo começa sempre com um poder político central sobre um território e sua
população, porque qualquer processo de nacionalização possível só pode ocorrer
num espaço dado, ao longo de um prolongado período de tempo. Esse espaço
precisa ser mais ou menos estável por um longo período. Conseqüentemente,
precisa-se de um poder político estável e centralizado. Este espaço é, nesse
sentido, necessariamente um espaço de dominação disputado e conquistado a
outros rivais.
Na Europa o processo que levou à formação de
estruturas de poder configuradas como Estado-nação, iniciou-se com a emergência
de alguns poucos núcleos políticos que conquistaram seu espaço de dominação e
se impuseram aos diversos e heterogêneos povos e identidades que o habitavam.
Deste modo o Estado-nação iniciou-se como um processo de colonização de alguns
povos sobre outros que, nesse sentido, eram povos estrangeiros. Em alguns casos
particulares, como na Espanha que se constituía sobre a base da América e de
seus enormes e gratuitos recursos, o processo incluiu a expulsão de alguns
grupos, como os muçulmanos e judeus, considerados como estrangeiros
indesejáveis. Esta foi a primeira experiência de limpeza étnica no período
moderno, seguida pela imposição dessa peculiar instituição chamada “certificado
de limpeza de sangue”24.
Por outro lado, o processo de centralização
estatal que antecedeu na Europa Ocidental a formação de Estados-nação, foi
paralelo à imposição da dominação colonial que começou com a América. Quer
dizer, simultaneamente com a formação dos impérios coloniais desses primeiros
Estados centrais europeus. O processo tem, pois, um duplo movimento histórico.
Começou como uma colonização interna de povos com identidades diferentes, mas
que habitavam os mesmos territórios transformados em espaços de dominação
interna, ou seja, nos próprios territórios dos futuros Estados-nação. E
continuou paralelamente à colonização imperial ou externa de povos que não só
tinham identidades diferentes das dos colonizadores, mas que habitavam
territórios que não eram considerados como os espaços de dominação interna dos
colonizadores, quer dizer, não eram os mesmos territórios dos futuros
Estados-nação dos colonizadores.
Se indagamos a partir de nossa atual
perspectiva histórica aquilo que sucedeu com os primeiros Estados centrais
europeus, seus espaços de dominação (populações e territórios) e seus
respectivos processos de nacionalização, observa-se que as diferenças são muito
visíveis. A existência de um forte Estado central não é suficiente para
produzir um processo de relativa homogeneização de uma população previamente
diversa e heterogênea, para produzir assim uma identidade comum e uma forte e
duradoura lealdade a tal identidade. Entre esses casos, a França é
provavelmente a experiência mais bem-sucedida, bem como a Espanha é a menos
bem-sucedida.
Por que a França sim e a Espanha não? A
Espanha era em seus primórdios muito mais rica e poderosa que seus pares.
Porém, após a expulsão dos muçulmanos e judeus deixou de ser produtiva e
próspera para transformar-se em correia de transmissão dos recursos da América
aos centros emergentes do capital financeiro mercantil. Ao mesmo tempo, após o
violento e bem-sucedido ataque contra a autonomia das comunidades camponesas e
das cidades e burgos, viu-se presa numa estrutura senhorial de poder e sob a
autoridade de uma monarquia e de uma igreja repressivas e corruptas. A
Monarquia da Espanha dedicou-se, ademais, a uma política bélica em busca da
expansão de seu poder senhorial na Europa, em lugar de uma hegemonia sobre o
mercado mundial e o capital comercial e financeiro como fizeram mais tarde a
Inglaterra ou a França. Todas as lutas para forçar os controladores do poder a
admitir ou negociar alguma democratização da sociedade e do Estado foram
derrotadas, em especial a revolução liberal de 1810-12. Deste modo, o colonialismo
interno e os padrões senhoriais de poder político e social, combinados,
demonstraram ser fatais para a nacionalização da sociedade e do Estado
espanhóis, na medida em que esse tipo de poder não só provou ser incapaz de
sustentar qualquer vantagem proveniente desse rico e vasto colonialismo
imperial ou externo: provou igualmente que constituía um muito poderosos
obstáculo a todo processo democratizador das relações sociais e políticas e não
só dentro do espaço próprio de dominação.
Pelo outro lado, na França, através da
democratização radical das relações sociais e políticas com a Revolução
Francesa, o prévio colonialismo interno evoluiu para uma “afrancesamento”
efetivo, ainda que não total, dos povos que habitavam o território da França,
originalmente tão diversos e histórico-estruturalmente heterogêneos como no
espaço de dominação que se chamaria Espanha. Os bascos franceses, por exemplo,
são, em primeiro lugar, franceses, como os occitanos ou os navarros. Não é o
caso da Espanha.
Em cada um dos casos de nacionalização
bem-sucedida de sociedades e Estados na Europa, a experiência é a mesma: um
importante processo de democratização da sociedade é a condição básica para a
nacionalização dessa sociedade e de sua organização política num Estado-nação
moderno. Não há, na verdade, exceção conhecida a essa trajetória histórica do
processo que conduz à formação do Estado-nação.
O Estado-nação na
América: os Estados Unidos
Se examinarmos a experiência da América, seja
em suas áreas hispânica ou britânica, podemos reconhecer diferenças e fatores
básicos equivalentes. Na área britânico-americana, a ocupação do território foi
desde o começo violenta. Mas antes da Independência, conhecida nos Estados
Unidos como a Revolução Americana, o território ocupado era muito pequeno. Por
isso os índios não foram habitantes do território ocupado, não estavam
colonizados. Por isso, os diversos povos indígenas foram formalmente
reconhecidos como nações e com eles se praticaram relações comerciais
inter-nações, inclusive se formaram alianças militares nas guerras entre
colonialistas ingleses e franceses, sobretudo. Os índios não eram parte da
população incorporada ao espaço de dominação colonial britânico-americana. Por
isso mesmo, quando se inicia a história do novo Estado-nação chamado Estados
Unidos da América do Norte, os índios foram excluídos dessa nova sociedade.
Foram considerados estrangeiros. Mas posteriormente suas terras foram
conquistadas e eles quase exterminados. Só então os sobreviventes foram
encerrados na sociedade estadunidense como raça colonizada. No início,
portanto, relações colonial/raciais existiram somente entre brancos e negros.
Este último grupo era fundamental para a economia da sociedade colonial, como
durante um primeiro longo momento para a economia da nova nação. Todavia,
demograficamente os negros eram uma relativamente reduzida minoria, enquanto os
brancos compunham a grande maioria.
Quando da fundação dos Estados Unidos como
país independente, o processo de constituição do novo padrão de poder levou desde
o começo à configuração de um Estado-nação. Em primeiro lugar, apesar da
relação colonial de dominação entre brancos e negros e do extermínio
colonialista da população índia, dada a condição avassaladoramente majoritária
dos brancos, é inevitável admitir que esse novo Estado-nação era genuinamente
representativo da maioria da população. Essa branquitude social da sociedade
estadunidense foi inclusive aprofundada com a imigração de milhões de europeus
durante o século XIX. Em segundo lugar, a conquista dos territórios indígenas
resultou na abundância da oferta de um recurso básico de produção, a terra.
Este pôde ser, por conseqüência, apropriado e distribuído de maneira não
unicamente concentrada sob o controle de pouquíssimas pessoas, mas pelo contrário
pôde ser, ao mesmo tempo, parcialmente concentrado em grandes latifúndios e
também apropriado ou distribuído numa vasta proporção de média e pequenas
propriedades. Equivalente, pois, a uma distribuição democrática de recursos.
Isso fundou para os brancos uma participação notavelmente democrática no
controle da geração e da gestão da autoridade pública. A colonialidade do novo
padrão de poder não foi anulada, no entanto, já que negros e índios não podiam
ter lugar, em absoluto, no controle dos recursos de produção, nem das
instituições e mecanismos da autoridade pública.
Em meados do século XIX, Tocqueville (1835:
cap. XVI e XVII) observou que nos Estados Unidos da América, gente de origens
tão diversos cultural, étnica e mesmo nacionalmente, eram incorporados todos em
algo parecido a uma máquina de re-identificação nacional; rapidamente se
transformavam em cidadãos estadunidenses e adquiriam uma nova identidade
nacional, preservando por algum tempo suas identidades originais. Tocqueville
afirmou então que o mecanismo básico desse processo de nacionalização era a
abertura da participação democrática na vida política para todos os
recém-chegados. Todos eles eram atraídos a uma intensa participação política e
com a liberdade de decisão de participar ou não. Mas viu também que dois grupos
específicos não estavam autorizados a participar da vida política. Estes eram,
evidentemente, negros e índios. Essa discriminação era, pois, o limite desse
impressionante e massivo processo de formação do Estado-nação moderno na jovem
república dos Estados Unidos da América. Tocqueville não deixou de advertir que
a menos que essa discriminação social e política fosse eliminada, o processo de
construção nacional se veria limitado. Um século mais tarde, outro europeu,
Gunnar Myrdall (1944), observou essas mesmas limitações no processo nacional
dos Estados Unidos. Viu também que devido ao fato de que os novos imigrantes
eram não-brancos (provinham da América Latina e da Ásia, em sua maioria), as
relações coloniais dos brancos com esses outros povos poderiam ser um sério
risco para a reprodução dessa nação. Sem dúvida esses riscos vêm aumentando
hoje em dia, na medida em que o velho mito do melting pot foi abandonado
à força e o racismo tende a ser de novo agudo e violento.
Em suma, a colonialidade das relações de
dominação/exploração/conflito entre brancos e não-brancos, não obstante sua
intensa vigência, dada a condição vastamente majoritária dos primeiros não foi
forte o suficiente para impedir a relativa, mas real e importante, democratização
do controle de recursos de produção e do Estado, entre brancos, é verdade, mas
com o vigor necessário para que pudesse ser reclamada mais tarde também pelos
não-brancos. O poder pôde ser configurado na trajetória e na orientação de um
Estado-nação. É a isso que se refere, sem dúvida, a idéia da Revolução
Americana.
América Latina: Cone Sul
e maioria branca
À primeira vista, a situação nos países do
chamado Cone Sul da América Latina (Argentina, Chile e Uruguai) foi similar à
ocorrida nos Estados Unidos. Os índios, em sua maioria, tampouco foram
integrados à sociedade colonial, na medida em que eram povos de mais ou menos a
mesma estrutura daqueles da América do Norte, sem disponibilidade para
transformar-se em trabalhadores explorados, não condenáveis a trabalhar
forçadamente e de maneira disciplinada para os colonos. Nesses três países,
também a população negra foi uma minoria durante o período colonial, em
comparação com outras regiões dominadas por espanhóis ou portugueses. E os
dominantes dos novos países do Cone Sul consideraram, como no caso dos Estados
Unidos, necessária a conquista do território que os índios povoavam e o
extermínio destes como forma rápida de homogeneizar a população nacional e,
desse modo, facilitar o processo de constituição de um Estado-nação moderno, à
européia. Na Argentina e no Uruguai isso foi feito no século XIX. E no Chile
durante as três primeiras décadas do século XX. Estes países atraíram também
milhões de imigrantes europeus, consolidando em aparência a branquitude das
sociedades da Argentina, do Chile e do Uruguai. Em determinado sentido, isto
também consolidou em aparência o processo de homogenização em tais países.
Um elemento crucial introduziu, contudo, uma
diferença básica nesses países em comparação com o caso estadunidense, muito em
especial na Argentina. Enquanto nos Estados Unidos a distribuição da terra
produziu-se de uma maneira menos concentrada durante um importante período, na
Argentina a apropriação da terra ocorreu de uma maneira completamente distinta.
A extrema concentração da propriedade da terra, em particular das terras
conquistadas aos índios, tornou impossível qualquer tipo de relações sociais
democráticas entre os próprios brancos e em conseqüência de toda relação
política democrática. Sobre essa base, em lugar de uma sociedade democrática,
capaz de representar-se e organizar-se politicamente num Estado democrático, o
que se constituiu foi uma sociedade e um Estado oligárquicos, só parcialmente
desmantelados desde a Segunda Guerra Mundial. Sem dúvida, essas determinações
se associaram ao fato de que a sociedade colonial nesse território, sobretudo
na costa atlântica que se tornou hegemônica sobre o resto, foi pouco
desenvolvida e por isso seu reconhecimento como sede de um Vice-reino foi tardio
(segunda metade do século XVIII). Sua emergência como uma das áreas prósperas
do mercado mundial foi rápida desde o último quarto do século XVIII, o que
impulsionou no século seguinte uma massiva migração do sul, do centro e do
leste da Europa. Mas essa vasta população migratória não encontrou uma
sociedade com estrutura, história e identidade suficientemente densas e
estáveis, para incorporar-se a ela e com ela identificar-se, como ocorreu no
caso dos Estados Unidos e sem dúvida no Chile e no Uruguai. Em fins do século
XIX a população de Buenos Aires compunha-se em mais de 80% por imigrantes de
origem européia. Levou tempo, por isso provavelmente, para que se considerassem
com identidade nacional e cultural próprias diferentes da européia, enquanto rejeitavam
explicitamente a identidade associada à herança histórica latino-americana e,
em particular, qualquer parentesco com a população indígena25.
A concentração da terra foi igualmente forte
no Chile, e um pouco menor no Uruguai. De qualquer modo, diferentemente da
Argentina, os imigrantes europeus encontraram nesses países uma sociedade, um
Estado, uma identidade já suficientemente densos e constituídos, aos quais se
incorporaram e com os quais se identificaram mais pronta e completamente que no
outro caso. No caso do Chile, por outra lado, a expansão territorial às custas
da Bolívia e do Peru permitia à burguesia chilena o controle de recursos cuja
importância marcou desde então a história do país: salitre primeiro, e cobre
pouco depois. Nas pampas salitreiras formou-se o primeiro grande contingente de
assalariados operários da América Latina, desde mediados do século XIX, e mais
tarde foi no cobre que se formou a coluna vertebral das organizações sociais e
políticas dos operários chilenos da velha república. Os benefícios,
distribuídos entre a burguesia britânica e a chilena, permitiram o impulso da
agricultura comercial e da economia comercial urbana. Formaram-se novas camadas
de assalariados urbanos e novas camadas médias relativamente amplas, junto com
a modernização de uma parte importante da burguesia senhorial. Foram essas
condições as que tornaram possível que os trabalhadores e as classes médias
pudessem negociar com algum êxito, desde 1930-35, as condições da
dominação/exploração/conflito. Isto é, da democracia nas condições do
capitalismo. Desse modo, pôde ser estabelecido um poder configurado como
Estado-nação de brancos, logicamente. Os índios, exígua minoria de
sobreviventes habitando as terras mais pobres e inóspitas do país, foram
excluídos desse Estado-nação. Até há pouco eram sociologicamente invisíveis.
Agora não o são tanto, começam a mobilizar-se em defesa dessas mesmas terras
que também arriscam perder face ao capital global.
O processo de homogenização dos membros da
sociedade imaginada de uma perspectiva eurocêntrica como característica e
condição dos Estados-nação modernos, foi levado a cabo nos países do Cone Sul
latino-americano não por meio da descolonização das relações sociais e
políticas entre os diversos componentes da população, mas pela eliminação
massiva de alguns deles (índios, negros e mestiços). Ou seja, não por meio da
democratização fundamental das relações sociais e políticas, mas pela exclusão
de uma parte da população. Dadas essas condições originais, a democracia alcançada
e o Estado-nação constituído não podiam ser afirmados e estáveis. A história
política desses países, muito especialmente desde fins da década de 60 até o
presente, não poderia ser explicada à margem dessas determinações26.
Maioria indígena, negra
e mestiça: o impossível “moderno Estado-nação”
No restante dos países latino-americanos,
essa trajetória eurocêntrica em direção ao Estado-nação se demonstrou até agora
impossível de chegar a termo. Após a derrota de Tupac Amaru e do Haiti, só nos
casos do México e da Bolívia chegou-se tão longe quanto possível no caminho da
descolonização social, através de um processo revolucionário mais ou menos
radical, durante o qual a descolonização do poder pôde percorrer um trecho
importante antes de ser contida e derrotada. Nesses países, ao começar a
Independência, principalmente aqueles que foram demográfica e territorialmente
extensos em princípios do século XIX, aproximadamente um pouco mais de 90% do
total da população era de negros, índios e mestiços. Contudo, em todos estes
países, durante o processo de organização dos novos Estados, a tais raças foi
negada toda possível participação nas decisões sobre a organização social e
política. A pequena minoria branca que assumiu o controle desses Estados viu-se
inclusive com a vantagem de estar livre das restrições da legislação da Coroa
Espanhola, que se dirigiam formalmente à proteção das raças colonizadas. A
partir daí chegaram inclusive a impor novos tributos coloniais aos índios, sem
prejuízo de manter a escravidão dos negros por muitas décadas. Claro que esta
minoria dominante se encontrava agora livre para expandir sua propriedade da
terra às custas dos territórios reservados aos índios pela regulamentação da
Coroa Espanhola. No caso do Brasil, os negros não eram nada além de escravos e
a maioria dos índios constituía-se de povos da Amazônia, sendo desta maneira
estrangeiros para o novo Estado.
O Haiti foi um caso excepcional onde se
produziu, no mesmo movimento histórico, uma revolução nacional, social e
racial. Quer dizer, uma descolonização real e global do poder. Sua derrota
produziu-se pelas repetidas intervenções militares por parte dos Estados
Unidos. O outro processo nacional na América Latina, no Vice-reino do Peru,
liderado por Tupac Amaru II em 1780, foi derrotado cedo. Desde então, em todas
as demais colônias ibéricas os grupos dominantes tiveram êxito precisamente em
evitar a descolonização da sociedade enquanto lutavam por Estados
independentes.
Esses novos Estados não
poderiam ser considerados de modo algum como nacionais, salvo que se admita que
essa exígua minoria de colonizadores no controle fosse genuinamente
representante do conjunto da população colonizada. As respectivas sociedades,
baseadas na dominação colonial de índios, negros e mestiços, não poderiam
tampouco ser consideradas nacionais, e muito menos democráticas. Isto coloca
uma situação aparentemente paradoxal: Estados independentes e sociedades
coloniais27. O paradoxo é somente parcial ou superficial, se
observamos com mais cuidado os interesses sociais dos grupos dominantes
daquelas sociedades coloniais e de seus Estados independentes.
Na sociedade colonial britânico-americana, já
que os índios constituíam um povo estrangeiro, vivendo além dos confins da
sociedade colonial, a servidão não esteve tão estendida como na sociedade
colonial da América Ibérica. Os servos (indentured servants) trazidos da
Grã-Bretanha não eram legalmente servos, e após a Independência não o foram por
muito tempo. Os escravos negros foram de importância básica para a economia,
mas demograficamente eram minoria. E desde o começo, depois da Independência, a
produção foi feita em grande medida por trabalhadores assalariados e produtores
independentes. No Chile, durante o período colonial, a servidão indígena foi
restringida, já que os servos índios locais eram uma pequena minoria. E os
escravos negros, apesar de serem mais importantes para a economia, eram também
uma pequena minoria. Deste modo, essas raças não eram uma grande fonte de
trabalho gratuito como no caso dos demais países ibéricos. Conseqüentemente,
desde o início da Independência uma crescente proporção da produção local
esteve baseada nos salários e no capital, e por essa razão o mercado interno
foi vital para a burguesia pré-monopólica. Assim, para as classes dominantes de
ambos os países –toutes distances gardées– o trabalho assalariado local,
a produção e o mercado interno foram preservados e protegidos da concorrência
externa como a única e a mais importante fonte de benefício capitalista. Mais
ainda, o mercado interno teve que ser expandido e protegido. Nesse sentido,
havia algumas áreas de interesses comuns entre os trabalhadores assalariados,
os produtores independentes e a burguesia local. Isto, em conseqüência, com as
limitações derivadas da exclusão de negros e mestiços, era um interesse
nacional para a grande maioria da população do novo Estado-nação.
Estado
independente e sociedade colonial: dependência histórico-estrutural
Por outro lado, nas outras sociedades
ibero-americanas, a pequena minoria branca no controle dos Estados
independentes e das sociedades coloniais não podia ter tido nem sentido nenhum
interesse social comum com os índios, negros e mestiços. Ao contrário, seus
interesses sociais eram explicitamente antagônicos com relação aos dos servos
índios e os escravos negros, dado que seus privilégios compunham-se
precisamente do domínio/exploração dessas gentes. De modo que não havia nenhum
terreno de interesses comuns entre brancos e não brancos, e, conseqüentemente,
nenhum interesse nacional comum a todos eles. Por isso, do ponto de vista dos
dominadores, seus interesses sociais estiveram muito mais próximos dos
interesses de seus pares europeus, e por isso estiveram sempre inclinados a
seguir os interesses da burguesia européia. Eram, pois, dependentes.
Eram dependentes dessa maneira específica,
não porque estivessem subordinados por um poder econômico ou político maior. De
quem? Espanha ou Portugal eram então demasiadamente fracos, subdesenvolviam-se,
não podiam exercer nenhum neocolonialismo como ingleses ou franceses em certos
países da África depois da independência política desses países. Os Estados
Unidos encontravam-se absorvidos na conquista das terras dos índios e no
extermínio dessa população, iniciando sua expansão imperial sobre parte do
Caribe, ainda sem capacidade de expandir seu domínio econômico ou político. A
Inglaterra tentou ocupar Buenos Aires e foi derrotada.
Os senhores brancos latino-americanos, donos
do poder político e de servos e de escravos, não tinham interesses comuns, e
sim exatamente antagônicos aos desses trabalhadores, que eram a avassaladora
maioria da população dos novos Estados. E enquanto na Europa e nos Estados
Unidos a burguesia branca expandia a relação social chamada capital como eixo
de articulação da economia e da sociedade, os senhores latino-americanos não
podiam acumular seus muitos benefícios comerciais comprando força de trabalho
assalariada, precisamente porque isso ia contra a reprodução de sua condição de
senhores. E destinavam esses benefícios comerciais ao consumo ostentoso das
mercadorias produzidas, sobretudo, na Europa.
A dependência dos
capitalistas senhoriais desses países tinha como conseqüência uma fonte
inescapável: a colonialidade de seu poder levava-os a perceber seus interesses
sociais como iguais aos dos outros brancos dominantes, na Europa e nos Estados
Unidos. Essa mesma colonialidade do poder impedia-os, no entanto, de
desenvolver realmente seus interesses sociais na mesma direção que os de seus
pares europeus, isto é, transformar capital comercial (benefício igualmente
produzido na escravidão, na servidão, ou na reciprocidade) em capital
industrial, já que isso implicava libertar índios servos e escravos negros e
transformá-los em trabalhadores assalariados. Por óbvias razões, os dominadores
coloniais dos novos Estados independentes, em especial na América do Sul depois
da crise de fins do século XVIII, não podiam ser nada além de sócios menores da
burguesia européia. Quando muito mais tarde foi necessário libertar os escravos,
não foi para assalariá-los, mas para substituí-los por trabalhadores imigrantes
de outros países, europeus e asiáticos. A eliminação da servidão dos índios é
recente. Não havia nenhum interesse social comum, nenhum mercado próprio a
defender, o que teria incluído o assalariado, já que nenhum mercado local era
de interesse dos dominadores. Não havia, simplesmente, nenhum interesse
nacional.
A dependência dos
senhores capitalistas não provinha da subordinação nacional. Esta foi,
pelo contrário, a conseqüência da comunidade de interesses raciais. Estamos
lidando aqui com o conceito da dependência histórico-estrutural, que é muito
diferente das propostas nacionalistas da dependência externa ou estrutural
(Quijano, 1967). A subordinação veio mais adiante, precisamente devido à
dependência e não o contrário: durante a crise econômica mundial dos anos 30, a
burguesia com mais capital comercial da América Latina (Argentina, Brasil,
México, Chile, Uruguai e até certo ponto a Colômbia) foi forçada a produzir
localmente os bens que serviam para seu consumo ostentador e que antes tinham
que importar. Este foi o início do peculiar caminho latino-americano de
industrialização dependente: a substituição dos bens importados para o consumo
ostentador dos senhores e dos pequenos grupos médios associados a eles, por
produtos locais destinados a esse consumo. Para tal finalidade não era
necessário reorganizar globalmente as economias locais, assalariar massivamente
servos, nem produzir tecnologia própria. A industrialização através da
substituição de importações é, na América Latina, um caso revelador das
implicações da colonialidade do poder28.
Neste sentido, o processo de independência
dos Estados na América Latina sem a descolonização da sociedade não pôde ser,
não foi, um processo em direção ao desenvolvimento dos Estados-nação modernos,
mas uma rearticulação da colonialidade do poder sobre novas bases
institucionais. Desde então, durante quase 200 anos, estivemos ocupados na
tentativa de avançar no caminho da nacionalização de nossas sociedades e nossos
Estados. Mas ainda em nenhum país latino-americano é possível encontrar uma
sociedade plenamente nacionalizada nem tampouco um genuíno Estado-nação. A
homogenização nacional da população, segundo o modelo eurocêntrico de nação, só
teria podido ser alcançada através de um processo radical e global de
democratização da sociedade e do Estado. Antes de mais nada, essa
democratização teria implicado, e ainda deve implicar, o processo da
descolonização das relações sociais, políticas e culturais entre as raças, ou
mais propriamente entre grupos e elementos de existência social europeus e não
europeus. Não obstante, a estrutura de poder foi e ainda segue estando
organizada sobre e ao redor do eixo colonial. A construção da nação e sobretudo
do Estado-nação foram conceitualizadas e trabalhadas contra a maioria da
população, neste caso representada pelos índios, negros e mestiços. A
colonialidade do poder ainda exerce seu domínio, na maior parte da América
Latina, contra a democracia, a cidadania, a nação e o Estado-nação moderno.
Atualmente podem-se distinguir quatro
trajetórias históricas e linhas ideológicas acerca do problema do Estado-nação:
1. Um
limitado mas real processo de descolonização/democratização através de
revoluções radicais como no México e na Bolívia, depois das derrotas do Haiti e
de Tupac Amaru. No México, o processo de descolonização do poder começou a
ver-se paulatinamente limitado desde os anos 60 até entrar finalmente num
período de crise no final dos anos 70. Na Bolívia a revolução foi derrotada em
1965.
2. Um
limitado mas real processo de homogeneização colonial (racial), como no Cone
Sul (Chile, Uruguai, Argentina), por meio de um genocídio massivo da população
aborígene. Uma variante dessa linha é a Colômbia, onde a população original foi
quase exterminada durante a colônia e substituída pelos negros.
3.
Uma sempre frustrada tentativa de homogeneização cultural através do genocídio
cultural dos índios, negros e mestiços, como no México, Peru, Equador,
Guatemala-América Central e Bolívia.
4. A
imposição de uma ideologia de “democracia racial” que mascara a verdadeira
discriminação e a dominação colonial dos negros, como no Brasil, na Colômbia e
na Venezuela. Dificilmente alguém pode reconhecer com seriedade uma verdadeira
cidadania da população de origem africana nesses países, ainda que as tensões e
conflitos raciais não sejam tão violentos e explícitos como na África do Sul ou
no sul dos Estados Unidos.
O que estas comprovações indicam é que há,
sem dúvida, um elemento que impede radicalmente o desenvolvimento e a
culminação da nacionalização da sociedade e do Estado, na mesma medida em que
impede sua democratização, já que não se encontra nenhum exemplo histórico de
modernos Estado-nação que não sejam o resultado dessa democratização social e
política. Qual é ou pode ser esse elemento?
No mundo europeu, e por
isso na perspectiva eurocêntrica, a formação de Estados-nação foi teorizada,
imaginada na verdade, como expressão da homogeneização da população em termos
de experiências históricas comuns. E à primeira vista, os casos exitosos de
nacionalização de sociedades e Estados na Europa parece dar razão a esse
enfoque. O que encontramos na história conhecida é, desde logo, que essa
homogeneização consiste na formação de um espaço comum de identidade e de
sentido para a população de um espaço de dominação. E isso, em todos os casos,
é o resultado da democratização da sociedade, que desse modo pode organizar-se
e expressar-se num Estado democrático. A pergunta pertinente, a estas alturas
do debate, é: por que isso foi possível na Europa Ocidental, e com as
limitações conhecidas, em todo o mundo de identidade européia (Canadá, EUA,
Austrália, Nova Zelândia, por exemplo)? Por que não foi possível, até hoje,
senão de modo parcial e precário, na América Latina?
Para começar, teria sido
possível na França, o caso clássico de Estado-nação moderno, essa
democratização social e radical se o fator racial tivesse estado presente? É
muito pouco provável. Hoje em dia é fácil observar na França o problema
nacional e o debate produzido pela presença de população não-branca, originária
das ex-colônias francesas. Obviamente não é um assunto de etnicidade nem de
crenças religiosas. Novamente basta recordar que há um século o Caso Dreyfus
demonstrou a capacidade de discriminação dos franceses, mas seu final também
demonstrou que para muitos deles a identidade de origem não era requisito
determinante para ser membro da nação francesa, desde que a cor fosse francesa.
Os judeus franceses são hoje mais franceses que os filhos de africanos, árabes
e latino-americanos nascidos na França. Isto para não mencionar o sucedido com
os imigrantes russos e espanhóis cujos filhos, por terem nascido na França, são
franceses.
Isto quer dizer que a colonialidade do poder
baseada na imposição da idéia de raça como instrumento de dominação foi sempre
um fator limitante destes processos de construção do Estado-nação baseados no
modelo eurocêntrico, seja em menor medida como no caso estadunidense ou de modo
decisivo como na América Latina. O grau atual de limitação depende, como foi
demonstrado, da proporção das raças colonizadas dentro da população total e da
densidade de suas instituições sociais e culturais.
Por tudo isso, a colonialidade do poder
estabelecida sobre a idéia de raça deve ser admitida como um fator básico na
questão nacional e do Estado-nação. O problema é, contudo, que na América
Latina a perspectiva eurocêntrica foi adotada pelos grupos dominantes como
própria e levou-os a impor o modelo europeu de formação do Estado-nação para
estruturas de poder organizadas em torno de relações coloniais. Assim, ainda
nos encontramos hoje num labirinto em que o Minotauro é sempre visível, mas sem
nenhuma Ariadne para mostrar-nos a ansiada saída.
Eurocentrismo e revolução
na América Latina
Outro caso claro desse trágico desencontro
entre nossa experiência e nossa perspectiva de conhecimento é o debate e a
prática de projetos revolucionários. No século XX a avassaladora maioria da
esquerda latino-americana, adepta do Materialismo Histórico, manteve o debate
basicamente em torno de dois tipos de revoluções: democrático-burguesa e
socialista. Rivalizando com essa esquerda, o movimento denominado aprista –o
APRA (Aliança Popular Revolucionária Anti-imperialista) no Peru, a AD (Ação
Democrática na Venezuela), o MNR (Movimento Nacionalista Revolucionário) na
Bolívia, o MLN (Movimento de Libertação Nacional) na Costa Rica, o Movimento
Revolucionário Autêntico e os Ortodoxos em Cuba entre os mais importantes– pela
boca de seu maior teórico, o peruano Haya de la Torre, propôs originalmente,
entre 1925-1935, a chamada Revolução Anti-imperialista, como um processo de
depuração do caráter capitalista da economia e da sociedade latino-americanas,
sobre a base do controle nacional-estatal dos principais recursos de produção,
como uma transição em direção a uma revolução socialista. Desde o fim da
Segunda Guerra Mundial, esse projeto transitou definitivamente para uma espécie
de social-liberalismo29, e se vai esgotando desse modo.
De maneira breve e esquemática, mas não
arbitrária, pode-se apresentar o debate latino-americano sobre a revolução
democrático-burguesa como um projeto no qual a burguesia organiza a classe
operária, os camponeses e outros grupos dominados para arrancar dos senhores
feudais o controle do Estado e para reorganizar a sociedade e o Estado nos
termos do capital e da burguesia. A suposição central desse projeto é que a
sociedade na América Latina é fundamentalmente feudal, ou semifeudal na melhor
das hipóteses, já que o capitalismo é ainda incipiente, marginal e subordinado.
A revolução socialista, por sua vez, concebe-se como a erradicação da burguesia
do controle do Estado pela classe operária, a classe trabalhadora por
excelência, à frente de uma coalizão das classes exploradas e dominadas, para
impor o controle estatal dos meios de produção, e construir a nova sociedade
por meio do Estado. A tese dessa proposta é, obviamente, a de que a economia e
portanto a sociedade e o Estado na América Latina são basicamente capitalistas.
Em sua linguagem, isso implica que o capital como relação social de produção é
dominante, e que conseqüentemente o burguês é também dominante na sociedade e
no Estado. Admite que há resíduos feudais, e portanto tarefas
democrático-burguesas no trajeto da revolução socialista.
De fato, o debate político do último meio
século na América Latina tem estado ancorado na questão da pretensa
feudalidade/semifeudalidade da economia, da sociedade e do Estado, ou se seriam
capitalistas. A maioria da esquerda latino-americana, até há poucos anos,
aderia à proposta democrático-burguesa, seguindo antes de tudo os alinhamentos
centrais do socialismo real ou do campo socialista, seja com sede
em Moscou ou em Pequim.
Para acreditar que na América Latina uma revolução
democrático-burguesa baseada no modelo europeu é não só possível, mas
necessária, primeiro é preciso admitir na América, e mais precisamente na
América Latina: 1) a relação seqüencial entre feudalismo e capitalismo; 2) a
existência histórica do feudalismo e conseqüentemente o conflito histórico
antagônico entre a aristocracia feudal e a burguesia; e 3) uma burguesia
interessada em levar a cabo semelhante empreendimento revolucionário. Sabemos
que na China no início dos anos 30, Mao propôs a idéia da revolução democrática
de novo tipo, porque a burguesia já não está interessada nessa sua missão
histórica, e tampouco é capaz de levá-la a cabo. Neste caso, uma coalizão de
classes exploradas/dominadas, sob a liderança da classe trabalhadora, deve
substituir a burguesia e empreender a nova revolução democrática.
Na América, contudo, como em escala mundial
desde 500 anos atrás, o capital existe apenas como o eixo dominante da
articulação conjunta de todas as formas historicamente conhecidas de controle e
exploração do trabalho, configurando assim um único padrão de poder,
histórico-estruturalmente heterogêneo, com relações descontínuas e conflitivas
entre seus componentes. Nenhuma seqüência evolucionista entre os modos de
produção, nenhum feudalismo anterior, separado do capital e a ele antagônico,
nenhum senhorio feudal no controle do Estado, ao qual uma burguesia sedenta de
poder tivesse que desalojar por meios revolucionários. Se seqüência houvera, é
sem dúvida surpreendente que o movimento seguidor do Materialismo Histórico não
haja lutado por uma revolução anti-escravista, prévia à revolução antifeudal,
prévia por sua à revolução anticapitalista. Porque na maior parte deste
continente (EUA, todo o Caribe, incluindo Venezuela, Colômbia, o litoral do
Equador e do Peru, Brasil), o escravismo foi mais generalizado e mais poderoso.
Mas, é claro, a escravidão terminou antes do século XX. E foram os senhores
feudais os que herdaram o poder. Não é verdade?
Uma revolução antifeudal, portanto
democrático-burguesa, no sentido eurocêntrico sempre foi, portanto, uma
impossibilidade histórica. As únicas revoluções democráticas realmente
ocorridas na América (além da Revolução Americana) foram as do México e da
Bolívia, como revoluções populares, nacionalistas-anti-imperialistas,
anticoloniais, isto é, contra a colonialidade do poder, e anti-oligárquicas,
isto é, contra o controle do Estado pela burguesia senhorial sob a proteção da
burguesia imperial. Na maioria dos outros países, o processo foi um processo de
depuração gradual e desigual do caráter social, capitalista, da sociedade e do
Estado. Logo, o processo foi sempre muito lento, irregular e parcial.
Poderia ter sido de outra maneira? Toda
democratização possível da sociedade na América Latina deve ocorrer na maioria
destes países, ao mesmo tempo e no mesmo movimento histórico como uma
descolonização e como uma redistribuição do poder. Em outras palavras, como uma
redistribuição radical do poder. Isto se deve, primeiro, a que as “classes
sociais”, na América Latina, têm “cor”, qualquer “cor” que se possa encontrar
em qualquer país, em qualquer momento. Isso quer dizer, definitivamente, que a
classificação das pessoas não se realiza somente num âmbito do poder, a
economia, por exemplo, mas em todos e em cada um dos âmbitos. A dominação é o
requisito da exploração, e a raça é o mais eficaz instrumento de dominação que,
associado à exploração, serve como o classificador universal no atual padrão
mundial de poder capitalista. Nos termos da questão nacional, só através desse
processo de democratização da sociedade pode ser possível e finalmente exitosa
a construção de um Estado-nação moderno, com todas as suas implicações,
incluindo a cidadania e a representação política.
Quanto à miragem eurocêntrica acerca das
revoluções “socialistas”, como controle do Estado e como estatização do
controle do trabalho/recursos/produtos, da subjetividade/recursos/produtos, do
sexo/recursos/produtos, essa perspectiva funda-se em duas suposições teóricas
radicalmente falsas. Primeiro, a idéia de uma sociedade capitalista homogênea,
no sentido de que só o capital como relação social existe e portanto a classe
operária industrial assalariada é a parte majoritária da população. Mas já
vimos que não foi assim nunca, nem na América Latina nem no restante do mundo,
e que quase seguramente não ocorrerá assim nunca. Segundo, a idéia de que o
socialismo consiste na estatização de todos e cada um dos âmbitos do poder e da
existência social, começando com o controle do trabalho, porque do Estado se
pode construir a nova sociedade. Essa suposição coloca toda a história, de
novo, sobre sua cabeça. Inclusive nos toscos termos do Materialismo Histórico,
faz de uma superestrutura, o Estado, a base da sociedade. E
escamoteia o fato de uma total reconcentração do controle do poder, o que leva
necessariamente ao total despotismo dos controladores, fazendo-a aparecer como
se fosse uma socialização do poder, isto é, a redistribuição radical do
controle do poder. Mas, precisamente, o socialismo não pode ser outra coisa que
a trajetória de uma radical devolução do controle sobre o
trabalho/recursos/produtos, sobre o sexo/recursos/produtos, sobre a
autoridade/instituições/violência, e sobre a
intersubjetividade/conhecimento/comunicação, à vida cotidiana das pessoas. Isso
é o que proponho, desde 1972, como socialização do poder (Quijano, 1972; 1981).
Solitariamente, em 1928,
José Carlos Mariátegui foi sem dúvida o primeiro a vislumbrar, não só na
América Latina, que neste espaço/tempo as relações sociais de poder, qualquer
que fosse seu caráter prévio, existiam e atuavam simultânea e articuladamente,
numa única e conjunta estrutura de poder; que esta não podia ser uma unidade
homogênea, com relações contínuas entre seus elementos, movendo-se na história
contínua e sistemicamente. Portanto, que a idéia de uma revolução socialista
tinha que ser, por necessidade histórica, dirigida contra o conjunto desse
poder e que longe de consistir numa nova reconcentração burocrática do poder,
só podia ter sentido como redistribuição entre as pessoas, em sua vida
cotidiana, do controle sobre as condições de sua existência social30.
O debate não será retomado na América Latina senão a partir dos anos 60 do
século há pouco terminado, e no resto do mundo a partir da derrota mundial do
campo socialista.
Na realidade, cada categoria usada para
caracterizar o processo político latino-americano tem sido sempre um modo
parcial e distorcido de olhar esta realidade. Essa é uma conseqüência
inevitável da perspectiva eurocêntrica, na qual um evolucionismo unilinear e
unidirecional se amalgama contraditoriamente com a visão dualista da história;
um dualismo novo e radical que separa a natureza da sociedade, o corpo da
razão; que não sabe o que fazer com a questão da totalidade, negando-a
simplesmente, como o velho empirismo ou o novo pós-modernismo, ou entendendo-a
só de modo organicista ou sistêmico, convertendo-a assim numa perspectiva
distorcedora, impossível de ser usada salvo para o erro.
Não é, pois, um acidente que tenhamos sido,
por enquanto, derrotados em ambos os projetos revolucionários, na América e em
todo o mundo. O que pudemos avançar e conquistar em termos de direitos
políticos e civis, numa necessária redistribuição do poder, da qual a
descolonização da sociedade é a pressuposição e ponto de partida, está agora
sendo arrasado no processo de reconcentração do controle do poder no
capitalismo mundial e com a gestão dos mesmos responsáveis pela colonialidade
do poder. Conseqüentemente, é tempo de aprendermos a nos libertar do espelho
eurocêntrico onde nossa imagem é sempre, necessariamente, distorcida. É tempo,
enfim, de deixar de ser o que não somos.
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Notas
* Centro de
Investigaciones Sociales (CIES), Lima.
1 Quero
agradecer, principalmente, a Edgardo Lander e a Walter Mignolo, por sua ajuda
na revisão deste artigo. E a um comentarista, cujo nome ignoro, por suas
valiosas críticas a uma versão anterior. Desnecessário afirmar que eles não são
responsáveis pelos erros e limitações do texto.
2 Sobre o
conceito de colonialidade do poder, ver Aníbal Quijano (1992a).
3 Ver
Quijano e Wallerstein (1992) e Quijano (1991). Sobre o conceito de
espaço/tempo, ver Wallerstein (1997).
4 Sobre esta
questão e sobre os possíveis antecedentes da idéia de raça antes da América,
remeto a Quijano (1992b).
5 A invenção
da categoria de cor –primeiro como a mais visível indicação de raça, mais tarde
simplesmente como o equivalente dela–, tanto como a invenção da particular
categoria de branco, exigem ainda uma pesquisa histórica mais exaustiva. Em
todo caso, muito provavelmente foram invenções britânico-americanas, já que não
há rastros dessas categorias nas crônicas e em outros documentos dos primeiros
cem anos de colonialismo ibérico na América. Para o caso britânico-americano
existe uma extensa bibliografia (Theodore W. Allen, 1994 e Mathew Frye
Jacobson, 1998, entre os mais importantes). O problema é que esta ignora o
sucedido na América Ibérica. Devido a isso, para esta região ainda carecemos de
informação suficiente sobre este aspecto específico. Por isso esta segue sendo
uma questão aberta. É muito interessante que apesar de que os que haveriam de
ser europeus no futuro, conheciam os futuros africanos desde a época do
império romano, inclusive os ibéricos, que eram mais ou menos familiares com
eles muito antes da Conquista, nunca se pensou neles em termos raciais antes da
aparição da América. De fato, raça é uma categoria aplicada pela primeira vez
aos “índios”, não aos “negros”. Deste modo, raça apareceu muito antes
que cor na história da classificação social da população mundial.
6 A idéia de raça é, literalmente, uma invenção. Não tem nada a ver com a
estrutura biológica da espécie humana. Quanto aos traços fenotípicos, estes se
encontram obviamente no código genético dos indivíduos e grupos e nesse sentido
específico são biológicos. Contudo, não têm nenhuma relação com nenhum dos
subsistemas e processos biológicos do organismo humano, incluindo por certo
aqueles implicados nos subsistemas neurológicos e mentais e suas funções. Ver
Jonathan Mark (1994) e Aníbal Quijano (1999b).
7 Fernando
Coronil (1996) discutiu a construção da categoria Ocidente como parte da
formação de um poder global.
8 Isso foi o
que, segundo um relato pessoal, encontrou Alfred Metraux, o conhecido
antropólogo francês, em fins dos anos 50 no Sul do Peru, e o mesmo que também
encontrei em 1963, em Cusco: um trabalhador braçal índio obrigado a
viajar de sua aldeia, em La Convención, até a cidade, para cumprir seu turno de
servir durante uma semana a seus patrões. Mas estes não lhe proporcionavam
moradia, nem alimento, nem, desde logo, salário. Metraux propunha que essa
situação estava mais próxima do colonato romano do século IV d.C. que do
feudalismo europeu.
9 Sobre o
processo de produção de novas identidades histórico-geoculturais ver de Edmundo
O’Gorman (1954), José Rabasa (1993), Enrique Dussel (1995), V. Y. Mudimbe
(1988), Charles Tilly (1990), Edward Said (1979) e Fernando Coronil (1996).
10 Acerca
dessas questões, ver George W. Stocking Jr. (1968), Robert. C. Young (1995),
Aníbal Quijano (1992a; 1992c; 1997) e Serge Gruzinski (1988).
11 Acerca
das categorias produzidas durante o domínio colonial europeu do mundo, existe
um bom número de linhas de debate: “estudos da subalternidade”, “estudos
pós-coloniais”, “estudos culturais”, “multiculturalismo”, entre os atuais.
Também uma florescente bibliografia demasiado extensa para ser aqui citada e
com nomes famosos entre eles, como Guha, Spivak, Said, Bhabha, Hall.
12 Há uma
vasta literatura em torno desse debate. Um sumário pode ser encontrado em meu
texto “El fantasma del desarrollo en América Latina” (Quijano, 2000a).
13 Sobre
este tema ver as agudas observações de Robert C. Young (1995).
14 Um debate
mais detido em Quijano (2000b).
15 Acerca
das proposições teóricas desta concepção do poder, ver Quijano (1999a).
16 No
sentido de que as relações entre as partes e a totalidade não são arbitrárias e
a última tem hegemonia sobre as partes na orientação do movimento do conjunto.
Não no sentido sistêmico, quer dizer, em que as relações das partes entre si e
com o conjunto são lógico-funcionais. Isto não ocorre senão nas máquinas e nos
organismos. Nunca nas relações sociais.
17 A literatura
do debate sobre o eurocentrismo cresce rapidamente. Uma posição diferente da
que orienta este artigo, ainda que dela aparentada, é a de Samir Amin (1989).
18 Sobre a origem da categoria de heterogeneidade histórico-estrutural, ver
meu “Notas sobre el concepto de marginalidad social, CEPAL”, incorporado depois
ao volume Imperialismo y Marginalidad en América Latina (Quijano, 1977).
Pode-se ver também Quijano (1988a).
19 Sempre me
perguntei pela origem de uma das mais caras propostas do Liberalismo: as idéias
devem ser respeitadas. O corpo, por sua vez, pode ser torturado, triturado e
morto. Nós os latino-americanos acostumamos citar com admiração a desafiante
frase de um mártir das lutas anticoloniais, no próprio momento de ser degolado:
“Bárbaros, as idéias não se degolam!”. Sugiro agora que sua origem deve ser
buscada nesse novo dualismo cartesiano, que transformou o “corpo” em mera
“natureza”.
20 Ver Discours
de la méthode, Méditations e Description du corps humain
(Descartes, 1963-1967). Paul
Bousquié (1994) acerta neste ponto: o cartesianismo é um novo dualismo radical.
21 Acerca
desses processos na subjetividade eurocentrada, revela muito que a única
categoria alternativa ao Ocidente era, e ainda o é, o Oriente, enquanto que os
negros (África) ou os índios (América antes dos Estados Unidos) não tinham a
honra de ser o Outro da Europa ou Ocidente.
22 Como
sugere Benedict Anderson (1991). Uma discussão mais extensa sobre este ponto em
Quijano (1998a).
23 Uma
discussão mais ampla sobre os limites e as condições da democracia numa
estrutura de poder capitalista, em Quijano (1998a; 2000a).
24
Provavelmente o antecedente mais próximo da idéia de raça produzida pelos
castelhanos na América. Ver Quijano (1992b).
25 Ainda nos
anos 20 em pleno século XX, H. Murena, um membro importante da inteligência
argentina, não hesitava em proclamar: “Somos europeus exilados nestas pampas
selvagens”. Ver Eugenio Imaz (1964). E tão tardiamente como nos anos 60, nas
lutas sociais, culturais e políticas da Argentina, “cabecita negra” era o mote
pejorativo da discriminação especificamente racial.
26 A
homogeneização é um elemento básico da perspectiva eurocentrista da
nacionalização. Se assim não fosse, não se poderia explicar, nem entender, os
conflitos nacionais nos países europeus cada vez que se coloca o problema das
diferenças étnico-raciais dentro da população. Não se poderia entender
tampouco, de outro modo, a política eurocêntrica de povoamento favorecida pelos
liberais do Cone Sul da América Latina, nem a origem e o sentido do assim
chamado “problema indígena” em toda a América Latina. Se os fazendeiros
peruanos do século XIX importaram chineses, foi precisamente porque a questão
nacional não estava em jogo para eles, e sim o puro interesse social. Foi por
essa perspectiva eurocentrista, fundada na colonialidade do poder, que a
burguesia senhorial latino-americana tem sido inimiga da democratização social
e política como condição de nacionalização da sociedade e do Estado.
27 Nos anos
60 e 70 muitos cientistas sociais dentro e fora da América Latina, entre os
quais me incluo, usamos o conceito de “colonialismo interno” para caracterizar
a aparente relação paradoxal dos Estados independentes com relação a suas
populações colonizadas. Na América Latina, Pablo González Casanova (1965) e
Rodolfo Stavenhagen (1965) foram seguramente os mais importantes entre os que
trataram de teorizar o problema de maneira sistemática. Agora sabemos que esses
são problemas acerca da colonialidade que vão muito além da trama institucional
do Estado-nação.
28 Sobre
estas questões adiantei algumas propostas de debate em Quijano (1993).
29 A miopia
eurocêntrica, não apenas de estudiosos da Europa ou dos Estados Unidos mas
também dos da América Latina, difundiu e quase impôs universalmente o nome de
populismo para esses movimentos e projetos que, contudo, têm pouco em comum com
o movimento dos narodníkis russos do século XIX ou do populismo estadunidense
posterior. Uma discussão destas questões em Quijano (1998b).
30 Essa
descoberta é, sem dúvida, o que outorga a Mariátegui seu maior valor e sua
continuada vigência, derrotados os socialismos e seu materialismo histórico.
Ver, sobretudo, a passagem final do primeiro de seus 7 Ensayos de
Interpretación de la realidad peruana (1928b), numerosamente reimpresso;
“Punto de Vista Antiimperialista” apresentado à Primeira Conferência Comunista
Latino-americana, Buenos Aires (1929); e o célebre “Aniversario y balance”,
editorial da revista Amauta (1928a).
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